Mulheres rurais de Marabá recebem recursos para superar pobreza e iniciar negócios

Mais de 20 delas já foram beneficiadas pelo Programa Fomento Rural, por intermédio do escritório local da Emater

27/08/2020 12h54 - Atualizada em 27/08/2020 15h10
Por Aline Miranda (EMATER)

Valdenubia Sales dos Santos vai receber o valor total de R$ 2,4 mil, pagos em duas parcelasAos 24 dias de idade, Maria Heloísa Xavier já carrega uma herança diferenciada: o protagonismo feminino, em termos de trabalho e liderança, no meio rural. Renata Xavier, 25, criada desde sempre na Vila 4, no assentamento 26 de Março, é um exemplo tanto para a filha recém-nascida, quanto para a mais velha, Ana Clara, 5. “Somos uma escadinha de mulheres fortes, trabalhadeiras, que vão à luta. Isso desde minha mãe, minha sogra, as mães delas, a raiz é de perder de vista”, conta. 

Mesmo no puerpério, Renata é uma das 21 beneficiárias em estado de vulnerabilidade socioeconômica da zona rural de Marabá, no sudeste paraense, que está recebendo, de 18 de agosto até o próximo 31, a primeira parcela dos recursos do Programa Fomento Rural, por intermédio do escritório local da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater). Outras duas beneficiárias receberão o aporte assim que atualizarem os dados no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico).

O Programa de Fomento às Atividades Produtivas Rurais é uma parceria entre o Governo do Pará, por meio da Emater, e do Governo Federal, por meio dos Ministério da Cidadania (MC) e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), para atendimento especial em 63 municípios.

Maria Arlene Moura da Silva foi beneficiada pelo programa, que atende 63 municípios do EstadoJuntando o repasse de recursos individuais e não-reembolsáveis no valor total de R$ 2,4 mil, consultorias especializadas e treinamento intensivo, o objetivo é propiciar, no período estimado de dois anos, que cidadãos sem qualquer geração de renda significativa, com grandes privações para a sobrevivência, tornem-se microempresários da agricultura familiar ou de serviços em comunidades rurais, com garantia de autossustento, a partir da concretização de projetos elaborados pela Emater.

O marido de Renata, Kenedy, 28, por exemplo, atua de carteira assinada como porteiro, mas lhes falta dinheiro para as necessidades do dia a dia. Criam galinha e porco, porém o abate só supre a subsistência. São 30 aves e uma leitoa. “Fazendo o cálculo, no resguardo, comi seis, para me recuperar. Ou seja: não tínhamos verba para investir no negócio. A Emater veio como uma luz no fim do túnel”, revela.

Pelo Programa, o plano é estruturar a avicultura, com compra de chocadeira e cerca, aumentando o plantel e vendendo a carne. 

Marileide Passos de Resende também recebeu o recursoBeneficiários

As famílias sob o Fomento Rural em Marabá vivem na Vila Sororó e entorno, no km 35 da rodovia BR-155. A maior parte chefiada por mulheres (solteiras, divorciadas ou viúvas), responsáveis por uma média de quatro filhos crianças ou adolescentes, são consideradas em situação de extrema pobreza, via indicadores governamentais de sociologia e economia.

Ainda as casadas ou em união estável fazem questão de que o benefício seja oficializado no nome delas, e não no do marido ou companheiro, sem briga ou discordância.

“É um aspecto cultural que tem que ser valorizado, embora o diagnóstico socioeconômico da Emater pelo Programa não esgote a pesquisa, apenas apresente tais evidências. Em um ambiente patriarcal no qual é típico e imposto à mulher o papel de coadjuvante, na região, elas se destacam como mão de obra e pelo poder de decisão dentro dos arranjos familiares”, aponta a socióloga do escritório local da Emater em Marabá, Franceli Silva.

Apesar de ascendência agricultora, representando gerações de conhecimento e prática na lida de campo, quase todo esse público depende do Bolsa-Família e, por motivos diversos, encontra dificuldade para produzir nos lotes cujas dimensões não alcançam nem 5% de um hectare.  

Os projetos da Emater, baseados nos interesses expressos pelas famílias, versam sobre atividades tanto agrícolas (cultivo de hortaliças, criação de galinha caipira e beneficiamento de açaí), como não-agrícolas (revenda de roupas e cosméticos), no entendimento de que a maior variedade de serviços impulsiona a movimentação de moeda e aumenta a qualidade de vida como um todo, inibindo êxodo rural. 

“Vale ressaltar que a comunidade possui localização estratégica para comércio, porque a vizinhança e o caminho são de uma base de mineração”, adianta o chefe do escritório local da Emater, o engenheiro florestal Antônio Marçal.

Previsão é que ano que vem mais 27 famílias de Marabá participem do Fomento RuralComo o assessoramento da Emater é multidisciplinar, fazem parte da equipe envolvida os técnicos em agropecuária Francisco Ferreira e Richardson Figueiredo, e a pedagoga Leiva Rodrigues. Na fase de diagnósticos e levantamentos, houve apoio de mais profissionais de outros escritórios da Emater: o técnico em agropecuária Weberson Rocha, o engenheiro agrônomo Glauco Brito e o engenheiro florestal Donner Matos. 

Futuro

A segunda parcela, de R$ 1 mil, deve ser liberada em cerca de 40 dias. A previsão é que ano que vem mais 27 famílias de Marabá participem do Fomento Rural. 

Por dois contratos e um aditivo entre Emater e Ministérios, todos com vigência até o fim de 2022, na região de Marabá estão inclusos, além do pólo em si, os municípios de Breu Branco, Itupiranga, Novo Repartimento, Rondon e Tucuruí, com 50 famílias em cada.

De acordo com a presidente da Emater, Cleide Amorim, “a importância da Emater no fomento é dar oportunidade aos agricultores mais vulneráveis de participarem de um projeto em que possam produzir, ter renda e ser economicamente ativos". "A Emater faz o projeto produtivo e o Ministério da Cidadania repassa o valor de R$ 2,4 mil, em duas parcelas. Primeiro eles recebem R$ 1,4 mil, e depois R$ 1 mil. É uma prestação de serviço, sem nenhum objetivo financeiro, e sim social”, avalia.