Especialistas debatem formas e futuro da Bioeconomia na Amazônia

A programação faz parte da preparação ao Fórum Mundial de Bioeconomia, que será realizado na capital paraense, em outubro

15/09/2021 20h01 - Atualizada em 15/09/2021 21h52

Um grupo de especialistas em floresta amazônica participou, nesta quarta-feira (15), de debate on-line sobre Bioeconomia para o Brasil e a Amazônia. Promovida pelo Governo do Pará e pelo Fórum Mundial de Bioeconomia, a mesa-redonda fez parte da programação do Fórum, que será realizado em Belém, em outubro próximo.

O evento teve como moderador o secretário de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade, Mauro O'de Almeida, com participação de Francisco Piyâko, líder da aldeia Apiwtxa e ex-secretário do Governo do Acre para os Povos Indígenas; Ana Euler, pesquisadora da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e engenheira florestal pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Ana Toni, diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade (ICS); Camille Bemerguy, diretora de Bioeconomia da Semas; Jukka Kantola, fundador do Fórum Mundial; Mark Rushton, cofundador e integrante do Conselho Consultivo do Fórum.O secretário Mauro O'de Almeida destacou as estratégias adotadas pelo Governo do Pará

Hoje, o grande desafio da Amazônia é superar o modelo de desenvolvimento exportador e alheio às suas características e necessidades, e assumir seu real papel no desenvolvimento nacional e internacional. Para o titular da Semas, a região deve assumir seu potencial de fornecedor de matérias-primas e energia, e como via de passagem para o crescimento econômico e social do País.

Avanço histórico - Mauro O'de Almeida destacou que as ações implementadas pelo governo estadual em sua política socioambiental pavimentam o desenvolvimento sustentável no Pará. "O Governo do Pará constrói um caminho para um futuro sustentável, que é o estímulo ao desenvolvimento humano conectado ao ambiental. Em 2020, o Pará conquistou um avanço histórico, por finalmente ter sua Política Estadual sobre Mudanças Climáticas, por meio de lei, colocando o Estado no centro do debate global sobre clima e florestas. Lançamos o Plano Estadual Amazônia Agora (PEAA) para buscar e transformar os princípios e diretrizes da política climática em oportunidades às pessoas", afirmou.

A bioeconomia está no centro do padrão de desenvolvimento implantado pelo Estado, afirmou Mauro O'de Almeida. "O Pará almeja reorientar o seu modelo de desenvolvimento socioeconômico através da construção de uma Estratégia Estadual de Bioeconomia, pautada pelo princípio das soluções baseadas na natureza e ancorada na Política Estadual de Mudanças Climáticas e no ‘Amazônia Agora’. Quando acreditamos na força transformadora da Bioeconomia para gerar empregos e renda capazes de se manter ao longo do tempo, e no manejo da floresta, colocamos em prática o velho ditado que diz que a floresta em pé vale muito mais do que derrubada”, ressaltou o secretário.O evento reuniu especialistas em Amazônia para debater os rumos da bioeconomia na região

Por sua vez, a diretora de Bioeconomia Camille Bemerguy propôs que apenas uma ampliação da agenda de bioeconomia, para além do desenvolvimento econômico, poderá resolver os complexos desafios encarados pela Amazônia e pelo Pará. "A bioeconomia é um dos muitos caminhos para o desenvolvimento sustentável, e precisa conciliar a urgência do ambiental às urgências de desenvolvimento social e humano. Quando se fala em bioeconomia como alternativa para o desenvolvimento econômico e para a manutenção da Amazônia em pé é fundamental compreender que não existe um único conceito de bioeconomia, assim como não existe uma única Amazônia. Há várias 'amazônias', cada uma com suas nuances, especificidades, riquezas e complexidades geopolíticas, étnico-culturais e ecológicas", enfatizou a diretora.

Buscar equilíbrio - Francisco Piyâco, liderança indígena Apiwtxa (termo que significa união para o povo Ashaninka), apresentou a perspectiva dos povos guardiões da Amazônia. Ele defendeu equilíbrio na relação da economia com a região. "A floresta, com o tamanho que ela é, com toda essa biodiversidade, nós, povos da Amazônia, moradores da Amazônia, precisamos ter um equilíbrio do diálogo entre aquilo que a floresta permite, em sua capacidade de trocar com o planeta, dentro do que é possível levar para o mercado. A gente tem que entender a lógica da floresta, do que são nossas demandas. Tem muitos desafios, mas começar certo é mais fácil de avançar do que querer consertar uma coisa depois. Por mais que pareça mais difícil, é o caminho mais correto. Os desafios que estão postos aí nos motiva muito, porque a gente se vê melhor. Poderia pensar um pouco no conceito do desenvolvimento. Se o mundo está preocupado, temos que pensar este conceito numa relação de troca. No equilíbrio da humanidade", frisou o líder indígena.

Ana Toni apresentou sua visão de que, para tratar da bioeconomia amazônida, é preciso uma abordagem adequada para as complexas peculiaridades da região: “Os amazônidas sempre nos ensinam que, para olhar para a Amazônia, temos que respeitar sua complexidade, sua diversidade, e respeitá-la em termos sociais, culturais e, logicamente, em sua biodiversidade. A primeira mensagem que eu quero dar para o Fórum é: abrace a complexidade da Amazônia, não tenha medo. Para lidar com a Amazônia temos que abraçar sua complexidade e entendê-la, para poder participar de uma maneira construtiva”, disse a gestora do Instituto Clima e Sociedade.

Esforço coletivo - Segundo Ana Euler, o desenvolvimento sustentável na Amazônia deve ser guiado por modelos de desenvolvimento humano e social, ressaltando que “o que faz este momento tão especial é uma convergência de olhares que aproxima, finalmente, os governos, o setor privado e a sociedade como um todo em torno deste esforço coletivo de combate às mudanças climáticas, de limitar o aquecimento global. A Amazônia está no centro das discussões e das soluções. E estas soluções vão além da conservação. Como já foi muito dito pelo Governo do Pará, esta solução é um projeto de desenvolvimento humano, de dignidade, de cidadania”.

Para a pesquisadora, o Fórum será a grande oportunidade para a região expor sua realidade. “Um dos desafios em termos de bioeconomia na Amazônia é uma infraestrutura que possa nos conectar com o mundo, que possa nos dar este protagonismo em dizer para o mundo sobre os modelos de desenvolvimento, de bioeconomia, que nós queremos. Isto será pautado neste Fórum Mundial que acontece na Amazônia, e nos dá uma oportunidade única de unir, integrar e construir uma visão conjunta sobre este tema”, reiterou.

O Fórum Mundial de Bioeconomia é um evento internacional, que reúne lideranças de vários países para debates. A capital paraense receberá o evento nos dias 18, 19 e 20 de outubro. Será a primeira vez que o Fórum ocorrerá fora da Europa.

A proposta principal é discutir e compartilhar ideias, além de promover soluções de base biológica. As mesas-redondas do Fórum (World BioEconomy Forum) são eventos moderados por profissionais de bioeconomia que, juntamente com palestrantes de alto nível, participam de conversas intensas sobre os tópicos fundamentais do WCBEF.

Por Bruna Brabo (SEMAS)