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FORÇA FEMININA

Mulheres da Artran ajudam a transformar e melhorar a mobilidade do transporte intermunicipal no Pará

Em um setor historicamente masculino, servidoras conquistam espaço, superam desafios e abrem caminho para outras mulheres

Por Rosivaldo Almeida (Artran)
06/03/2026 15h10

São cinco da manhã quando as primeiras embarcações começam a se preparar para sair dos portos de Belém. Enquanto muita gente ainda está dormindo, algumas mulheres já estão de pé, observando o movimento de pessoas, orientando passageiros, conferindo documentos e fiscalizando embarques para garantir a segurança de quem vai viajar no início da manhã.

Hoje, elas são parte fundamental da engrenagem que mantém o sistema de transporte intermunicipal funcionando e garantem direitos aos passageiros. Na Agência de Regulação e Controle dos Serviços Públicos de Transporte (Artran), são 60 mulheres entre os 150 servidores, o que representa 40% da força de trabalho da instituição. Os homens ainda são maioria com 90 servidores, mas a presença feminina cresce de forma constante.

E essa participação feminina é significativa nas histórias de quem sabe que precisa provar todos os dias que competência não tem gênero, e que é preciso força para enfrentar pressão e até violência. É o caso da controladora de transporte Ingrid Beltrão, de 25 anos. Logo no início da carreira na Artran, enquanto trabalhava no terminal do Arapari, na Cidade Velha, em Belém, ela viveu uma situação complicada.

Ingrid Beltrão, controladora de transporte aquaviário (ARTRAN)

“Eu estava fazendo o meu trabalho quando um homem me agrediu fisicamente no rosto. Aquele dia foi horrível e pensei em desistir de tudo. Foi um momento de muita tristeza, mas eu lembrei onde estava e qual era o meu objetivo de trabalho, então segui em frente. Hoje eu continuo aqui, fazendo o meu trabalho da melhor forma possível”, relata. Natural de Cachoeira do Arari, no arquipélago do Marajó, Ingrid veio para Belém para estudar e buscar oportunidades. Quando surgiu o processo seletivo da Artran, decidiu tentar. 

“Eu era universitária do curso de Serviço Social quando surgiu a oportunidade de me inscrever. Como sou do Marajó e sempre tive muito contato com o transporte aquaviário, me interessei muito. Quando fui aprovada, fiquei muito feliz porque imaginei que seria um trabalho desafiador. E realmente é. A gente enfrenta muitas situações difíceis, porque trabalhamos diretamente com os homens. Dificilmente você vê mulheres como marinheiras ou operadoras. Muitas vezes existe aquele pensamento de que, por ser mulher, a gente não sabe fazer o trabalho, mas estamos aqui justamente para mostrar que temos capacidade e responsabilidade.”

Mesmo diante das dificuldades, ela conta que encontrou motivação no próprio impacto do trabalho. “Trabalhar aqui me motiva porque embora tenha esse preconceito com a gente, muitas mulheres se aproximam da gente para perguntar como ingressar na área, parabenizar pelo trabalho e também dizer que se sentem representadas ao ver mulheres na fiscalização”, pontua.

Na fiscalização rodoviária, sete mulheres atuam ao lado de 15 homens, enquanto no administrativo da área são oito mulheres e cinco homens. No transporte aquaviário, que conecta ilhas e cidades do Estado, oito mulheres trabalham na regulação. Deste total, cinco atuam diretamente na fiscalização, enquanto os homens somam 21 profissionais.

Na sede da Artran, as mulheres ocupam cargos estratégicos como a Diretoria de Regulação e Planejamento, a Procuradoria Jurídica e gerências administrativas nas áreas de licitação, orçamento, finanças e logística. Também estão na linha de frente das operações.

Caroline Huhn, gerente de licitações e contratos

Nos bastidores do sistema de transporte, os desafios assumem outra forma. A analista Caroline Hunn, de 45 anos, atua há quase duas décadas em agências reguladoras do Estado e hoje conduz processos de licitação. Ela explica que o trabalho é técnico e decisivo para o funcionamento do sistema, mas também exige firmeza diante das pressões.

“Quando os fornecedores percebem que existe uma pregoeira, muitos testam para ver até onde conseguem ir, se a gente suporta a pressão. Já recebi telefonemas de advogados de empresas tentando me pressionar para que eu desse parecer favorável em processos de licitação, por exemplo. Existe uma tentativa de colocar pressão sobre nós mulheres para que a gente aceite o que eles querem e como querem”, explica.

Para lidar com essas situações, Caroline diz que encontrou resposta no próprio conhecimento. “A formação e o preparo técnico são fundamentais. Eu busco qualificação o tempo todo, faço cursos, especializações e estudo diariamente. O conhecimento é algo que ninguém pode tirar da gente. É isso que nos fortalece e nos dá segurança para enfrentar qualquer situação. O que me motiva pra continuar nesse ambiente, muitas vezes, machista é a minha filha. Quero ser exemplo para ela, assim como minha mãe foi para mim", diz a servidora de carreira emocionada.

Ellen Brito, analista de regulação de transporte

Em outros casos, o desafio começa ainda antes da primeira conversa. A engenheira mecânica Ellen Lilian Matos de Brito, de 44 anos, atua na análise de processos técnicos ligados ao transporte intermunicipal, avaliando pedidos de linhas, alterações de horários e o cadastro de operadores.

Há três anos, após iniciar tratamento psicológico por causa de uma depressão, ela recebeu o diagnóstico de autismo; uma descoberta que trouxe novas respostas sobre si mesma, mas que nunca foi um obstáculo para o trabalho. “Eu me sinto orgulhosa da minha trajetória. Mesmo com o autismo, consigo realizar meu trabalho com excelência, de forma clara e objetiva. Consigo entregar aquilo que é esperado de mim.” 

Mesmo com formação técnica e experiência, Ellen também já enfrentou a desconfiança comum em áreas dominadas por homens. “Na engenharia isso acontece bastante. Algumas pessoas têm dificuldade de aceitar mulheres em determinados trabalhos. Em um emprego anterior, durante viagens de trabalho, eu percebia olhares de desconfiança, como se estivessem se perguntando se realmente conseguiríamos fazer o trabalho. Com o tempo, as pessoas veem como você trabalha e passam a respeitar.”

Cláudia Mesquita, controladora de transporte aquaviário (Artran)

A controladora de transporte Cláudia Mesquita explica que, em um setor historicamente dominado por homens, a presença feminina vai além da rotina administrativa ou da fiscalização. Para ela, o trabalho também é uma forma de afirmar o espaço da mulher com respeito, sensibilidade e atenção às pessoas. "No transporte intermunicipal, essa abordagem mais humanizada faz diferença no dia a dia, seja ao orientar um passageiro, garantir direitos ou transformar a experiência de quem depende do transporte para chegar ao trabalho, à escola ou voltar para casa", conta a servidora de 54 anos. 

“Me orgulha saber que estamos contribuindo com os passageiros. É um trabalho diferente, que ainda não é tão comum no universo feminino, e talvez por isso o maior desafio seja lidar com um ambiente majoritariamente masculino. Muitas vezes sentimos que precisamos provar nossa competência todos os dias. Existe um certo incômodo com a presença das mulheres, mas com o tempo eles percebem que estamos ali para trabalhar com seriedade e responsabilidade. E os próprios usuários sentem essa diferença. A mulher tem um olhar de cuidado, de respeito com as pessoas e com a segurança e por isso merece ser aplaudida e respeitada”, conclui Cláudia.