Auto Junino do Curro Velho mostra o talento de profissionais que atuam nos bastidores
Espetáculo promovido pela Fundação Cultural do Pará mobiliza costureiras, cenógrafos, músicos, atores e técnicos em um processo coletivo marcado por empenho, criatividade e afeto
As apresentações do Auto Junino, no Núcleo Curro Velho, vinculado à Fundação Cultural do Pará (FCP), começam na próxima sexta-feira (19), prosseguindo até domingo (21), como parte da programação do Arraial de Todos os Santos, promovido pelo Governo do Pará. Mas antes de encantar o público, o Auto Junino conta com o empenho, a criatividade e a dedicação de um grupo formado por mais de 30 profissionais atuando nos bastidores. Eles não sobem ao palco, mas são decisivos na construção do espetáculo.
Costureiras, cenógrafos, músicos, atores e técnicos se dedicam à construção coletiva do Auto, inspirado no folclore amazônico e em temas ligados ao meio ambiente, cidadania e cultura popular.
Diálogo com o cotidiano - À frente do grupo está Jorge Cunha, atual coordenador de Iniciação Artística da FCP, que começou no Curro Velho ainda jovem, como “cria do Curro”, como são chamados os alunos e ex-alunos da instituição. Hoje, ele acompanha os principais projetos culturais do espaço, destacando o papel social e de formação do Auto Junino.
“Sempre procuramos trabalhar temáticas diferentes, mas que dialoguem com o cotidiano vivido pelos participantes em suas comunidades. Hoje, temos 32 oficinas ligadas ao teatro, à dança, música e também às áreas visuais, como cenografia, figurino e cenotecnia”, informa o coordenador.
Tecidos, linhas e memórias - No ateliê de figurinos, o trabalho começa na segunda quinzena de maio. Em pouco mais de um mês, seis profissionais confeccionam mais de 100 peças para o espetáculo.
Entre elas está Rosinete Ribeiro, que há mais de 25 anos participa da produção dos figurinos do Auto Junino. Seu primeiro trabalho foi na edição de 2001 e, desde então, acompanha anualmente as principais produções da Fundação Cultural do Pará.
Para Rosinete, a motivação sempre esteve ligada à paixão pela costura e pela criação artística. Nos últimos anos, o trabalho também se tornou sinônimo de acolhimento. Ela conta que, “após a morte do meu filho, eu perdi totalmente a vontade de continuar. Tenho uma filha com necessidades especiais e não tinha uma rede de apoio para me ajudar. Depois da insistência do Jorge e das minhas companheiras de trabalho, eu retornei, e foi a melhor decisão que poderia ter tomado”.
Ela lembra que começou no Curro Velho após ser convidada por um amigo, e nunca mais deixou o espaço. “Desde então, sigo trabalhando todos os anos nas três principais festas da Fundação: Carnaval das Crias, Auto Junino e Auto de Natal”, ressalta Rosinete.
Cenários com sustentabilidade - Na área de cenografia e adereços, o trabalho também é coletivo. Utilizando materiais recicláveis, três profissionais produzem cenários que ajudam a construir o universo visual do espetáculo. Uma das participantes desse trabalho é Nete Pamplona, 67 anos, que participa das atividades do Curro Velho há mais de três décadas. Ela começou aos 34 anos, frequentando oficinas, e integrou o elenco do primeiro espetáculo apresentado na instituição, “O Bum Rei”. Atualmente, atua na produção de cenários e adereços.
Ao longo dos anos, Nete enfrentou a dor pela morte dos dois filhos e do marido. Segundo ela, o acolhimento encontrado no Curro Velho foi fundamental para superar o luto. “O Curro Velho esteve presente na minha vida em momentos de grandes perdas e profunda tristeza. Sempre digo que foi graças a ele que sigo firme e forte. Aqui é a minha sessão de terapia”, conta a profissional, para quem o sentimento de realização surge ao fim de cada montagem. “É uma felicidade muito grande ver tudo pronto depois de tanto trabalho. Me sinto realizada”, garante.
Cultura popular e tradição - Mais do que montar um espetáculo, Jorge Cunha ressalta que o projeto contribui para a formação de profissionais da área cultural. “O mais interessante é que, ao mesmo tempo em que produzimos um espetáculo, também ajudamos a formar profissionais da educação, da arte e da técnica. Esse não é o objetivo inicial do projeto, mas muitos participantes acabam se tornando artistas, e hoje atuam no mercado do teatro, da dança e das artes visuais a partir do primeiro contato que tiveram aqui”, informa.
O Auto Junino 2026 será realizado entre os dias 19 e 21 de junho, sempre às 19h30, no anfiteatro do Núcleo Curro Velho, localizado na Rua Professor Nélson Ribeiro, nº 287, no bairro do Telégrafo, em Belém. A entrada é gratuita.
O roteiro do espetáculo é assinado por José Maria Bezerra, responsável pelas músicas e textos dos Autos há quase 20 anos. Nesta edição, o enredo “Eu só vim dar um passeio” busca inspiração na musicalidade e na cultura popular das regiões Norte e Nordeste. (Colaboração de Maurício Carvalho).

