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Título de Patrimônio Cultural consolida importância histórica e econômica do queijo do Marajó

O reconhecimento do Governo do Pará a um dos símbolos do arquipélago marajoara gera expectativas de crescimento entre os produtores locais

Por Rose Barbosa (SEDAP)
01/07/2026 18h31

Patrimônio Cultural de Natureza Material e detentor da primeira Indicação Geográfica (IG) do Pará, o queijo do Marajó se destaca pela autenticidade e ancestralidade. O reconhecimento à importância cultural do produto foi concedido pelo Governo do Pará em abril deste ano, e publicado há dois meses no Diário Oficial do Estado, abrindo perspectivas de melhorias aos produtores e empreendedores do Marajó.

Walter vende o queijo do Marajó do tipo maanteiga na praça central do município e diz que ficou feliz com a concessão do título à iguaria

No município de Soure, empreendedores ressaltam a satisfação com o título de patrimônio cultural e a esperança de dias melhores aos que têm na produção de queijo sua fonte de renda. Na praça central do município, o vendedor Walter Pedro, que trabalha há 24 anos na barraca que ele denominou de "Búfalo de Óculos", vende o queijo do tipo manteiga, produzido na Vila de Retiro Grande, município de Cachoeira do Arari.

Para ele, o queijo representa a oportunidade de sustento da família. Com dois filhos, Walter garante que tem clientes fiéis, não só do município de Soure como da capital, Belém, e ainda de outros estados.

O vendedor acredita que a concessão do título vai melhorar a geração de renda para ele e outros comerciantes de queijo. "Eu achei muito bom isso. A divulgação dessa conquista pela imprensa, em vários veículos, só traz mais e mais melhorias para nós", ressalta Walter Pedro.

Produtor Edilson Portal acredita que o reconhecimento vai melhorar a economia local

'Alma do negócio' - Do outro lado da rua, onde está instalada a Queijaria da Fazenda Portal, a expectativa com a concessão do título pelo Estado é grande. O empresário Edilson Portal, que também é produtor rural e tem uma queijaria em Cachoeira do Arari, só espera benefícios

Para quem considera que o "reconhecimento é a alma do negócio", Edilson informa que o queijo é o principal derivado da bubalinocultura - um símbolo do Arquipélago do Marajó. "Muitas famílias se sustentam com o queijo. A importância desse reconhecimento é que vem de muito trabalho dos produtores e das secretarias que nos dão apoio. O queijo fomenta a economia da região", garante.

Queijo do Marajó recebeu reconhecimento como Patrimônio Cultural há dois meses

Atualmente, o empreendedor mantém 22 funcionários trabalhando diretamente com o queijo nas suas propriedades, incluindo quem atua diretamente na fabricação do produto e aqueles que trabalham em outras etapas do processo, como vaqueiros, que tiram o leite, e cuidadores. "Isso agrega muito valor e gera mais empregos na atividade", destaca Edilson Portal.

Entre os trabalhadores da queijaria está Carlos Manuel. Segundo ele, "através da fabricação do queijo eu sustento a minha família. Faz 10 anos que trabalho nessa profissão. Nesta queijaria estou há quatro anos, e esse trabalho é muito importante para mim".

Carlos Augusto Gouvêa destaca a importância do reconhecimento como Patrimônio Cultural

Genuinamente paraense - Carlos Augusto Gouvêa (conhecido como Tonga), tem no queijo do Marajó uma referência não só econômica, como afetiva. Ele lembra que, nos anos 1970, quando era aluno da então Faculdade de Ciências Agrárias do Pará (atual Universidade Federal Rural da Amazônia - Ufra), em Belém, conseguiu manter seus estudos com o queijo que sua mãe enviava direto de Soure - onde nasceu - para a capital, a fim de contribuir para seu sustento e manutenção dos estudos.

"Eu vendia esse queijo, que sempre foi único, de sabor inigualável, para ajudar nos meus estudos. Meus colegas me ajudavam nessa venda. Tínhamos vários pontos onde vendíamos, e um deles era Icoaraci (distrito de Belém), que era o maior mercado consumidor", informa Carlos Gouvêa, que espera conseguir bons resultados com o reconhecimento ao queijo do Marajó.

Queijo e derivados do leite de búfala da Fazenda Mironga: produtos com sabores inigualáveis

Proprietário da Fazenda Mironga, ele tem como principal atividade a criação de búfalos, mas também produz o queijo de sabor inconfundível, feito com leite de búfala. Para Carlos Gouvêa, o reconhecimento consolida a importância histórica e econômica do produto para a região. "É um reconhecimento espetacular pela história que o queijo tem, pela importância econômica e cultural. O queijo é responsável pela fixação do homem. Ele evita o êxodo rural e proporciona que o Pará possa dizer: eu tenho um produto lácteo genuinamente paraense", enfatiza.

O produtor lembra ainda que os restaurantes da parte oriental do Marajó têm o hábito de ofertar alimentos característicos da região, como o frito do vaqueiro e o filé de búfalo com queijo do Marajó. "Hoje, nós estamos usando muito o peixe frito com o queijo em cima ou a carne com o queijo em cima. Ele tem essa característica de uma identidade gastronômica nessa parte do Marajó", explica.

O empresário destaca que nunca soube de alguém que tenha passado mal por ter consumido o queijo do Marajó, considerado por ele um dos mais saudáveis do Brasil. "Temos certeza que é um produto muito nobre. Rico em cálcio e fósforo, gordura interessante, e com isso está abrindo mercado. Antes, chegava muito queijo de fora do Marajó. Hoje, os queijos de Minas Gerais e do resto do Brasil, e do mundo, não têm essa abertura, porque o nosso nativo, a cozinha marajoara, os nossos restaurantes usam o queijo do Marajó", garante.

Produção do queijo aquece a economia no Marajó e atrai mais admiradores em todo o mundo

Reconhecimento oficial - O reconhecimento do queijo como patrimônio cultural foi sancionado pela governadora Hana Ghassan no último dia 28 de abril, após aprovação do Projeto de Lei nº 544/24 pela Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa), em 31 de março.

Dois dias após a sanção, Hana Ghassan visitou o município de Soure e destacou a importância do reconhecimento a um dos símbolos do Marajó. "Tem coisa que a gente já sabe que é patrimônio há muito tempo. Faz parte das nossa vidas, das nossas mesas. Mas, agora é oficial: o queijo do Marajó é Patrimônio Cultural do Pará", destacou a governadora. 

Em 2021, o queijo do Marajó já havia conquistado a Indicação Geográfica (IG), na modalidade Indicação de Procedência, pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). As cidades delimitadas como produtoras oficiais são Chaves, Cachoeira do Arari, Muaná, Ponta de Pedras, Santa Cruz do Arari, Salvaterra e Soure.

Carlos Manuel é um dos muitos trabalhadores que atuam na produção de queijo do Marajó

Apoio do Estado - A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap) participou de todo o processo de obtenção da IG do queijo do Marajó, coordenando o Fórum Técnico Estadual de Indicações Geográficas e Marcas Coletivas do Estado do Pará, composto por 31 instituições públicas e privadas.

Durante toda esta semana, a Sedap está com a equipe de técnicos da Coordenaria de Produção Animal (Copan) visitando propriedades de produção de leite de búfala e queijarias nos municípios de Soure e Cachoeira do Arari. Os médicos veterinários da Secretaria, Augusto Peralta e Anelise Ramos, conferem o modo de produção e orientam empreendedores para o acompanhamento da produção de queijo.