'Janelas da Alma' expõe olhares variados sobre a tradição do retrato no Pará
Mostra reúne obras dos séculos XIX ao XXI no Museu do Estado do Pará, e propõe ao público reflexões sobre poder, identidade e memória
A exposição "Janelas da Alma: A Tradição do Retrato nas Coleções de Pintura do Estado do Pará" já está aberta à visitação no Museu do Estado do Pará (MEP), no Palácio Lauro Sodré, em Belém. Desde a última sexta-feira (28), a mostra reúne dezenas de obras entre pinturas e fotografias dos séculos XIX ao XXI, e apresenta diversas formas de representação do retrato ao longo da história, passando por questões relacionadas ao poder, à identidade e à memória.
O público poderá conhecer retratos produzidos em vários momentos da história do Pará e da Amazônia. Distribuída em quatro salas, a exposição aproxima obras de várias épocas e coloca lado a lado imagens de autoridades, personagens históricos e pessoas comuns, além de apresentar as mudanças na representação do retrato entre a pintura e a fotografia.
Uma das curadoras, Cássia Rosa, destaca que a pesquisa realizada para a mostra permitiu identificar a diversidade de retratos preservados nos acervos do Estado, além das imagens oficiais de governantes. “A riqueza do acervo sempre nos surpreende. É possível perceber também os diferentes tipos de suporte, pinturas, fotografias, serigrafias e até mesmo objetos, como pratos. Foram diferentes formas de representação do retrato que nós conseguimos identificar no acervo do Estado do Pará e da Casa das Onze Janelas”, informa.
Representações - Segundo Cássia Rosa, o levantamento também revelou a variedade de personagens presentes nas obras. “Reconhecer no meio desses retratos figuras históricas ou pessoas comuns, autorretratos de artistas e até mesmo retratos de animais de estimação. A expectativa é que a exposição possa instigar reflexões sobre a representação de diferentes pessoas em diferentes tempos”, acrescenta.
A primeira sala, “Espelho do Tempo”, é dedicada à construção da autoridade por meio do retrato oficial. O espaço reúne imagens de figuras políticas do Império à República, e mostra como a arte também foi utilizada para consolidar a imagem de governantes e representar o poder. Entre os personagens retratados estão presidentes da República, governadores do Pará e personagens do período imperial.
Na segunda sala, “O Duplo Retrato”, o foco passa para as relações humanas e as diferentes camadas da identidade. Pinturas e fotografias colocam lado a lado irmãos, casais, crianças e uma mesma pessoa em várias idades. O espaço também reúne imagens relacionadas a conflitos e visões de mundo, trabalhando o retrato a partir do afeto, da passagem do tempo e das relações entre as pessoas.
A terceira sala apresenta o contraste entre momentos da produção artística, aproximando a tradição acadêmica das transformações trazidas pela arte moderna e pela fotografia. A proposta acompanha as mudanças na maneira de produzir e compreender o retrato e amplia o olhar sobre as formas de representação presentes no acervo.
Líderes e trabalhadores - Já a quarta sala, “Acareação: Quem são os verdadeiros heróis?”, coloca em confronto retratos de figuras ligadas ao poder e imagens de pessoas comuns. De um lado aparecem líderes políticos de períodos autoritários e, do outro, trabalhadores, ribeirinhos, indígenas, mulheres e outros personagens que ajudam a contar a história a partir de múltiplas perspectivas. A sala provoca o visitante a refletir sobre quem são os personagens reconhecidos como heróis e sobre o próprio ato de olhar para um retrato.
Para o diretor do Museu do Estado do Pará, Bruno Silva, esse confronto entre as imagens é uma das propostas centrais da exposição. “Nós temos retratos de autoridades que foram consideradas autoritárias, ao mesmo tempo que temos retratos de comunidades tradicionais, que muitas vezes foram vistas por essas autoridades como impedimento para o crescimento da economia ou para o desenvolvimento da sociedade brasileira. Mas essa interpretação é interessante quando é feita pelo visitante”, destaca o gestor.
A exposição “Janelas da Alma” tem curadoria de Aldrin Figueiredo, Armando Sobral, Anselmo Paes e Cássia Rosa. A mostra pode ser visitada até o dia 20 de outubro.
Serviço: Exposição “Janelas da Alma”. Até 20 de outubro, de terça-feira a domingo, das 9h às 17h, no Museu do Estado do Pará - Praça Dom Pedro II, s/n, bairro Cidade Velha. Entrada gratuita.
Texto: Jhuly Cavalcante, sob supervisão de Lorena Saraiva - Ascom/Secult

