Agência Pará
pa.gov.br
Ferramenta de pesquisa
ÁREA DE GOVERNO
TAGS
REGIÕES
CONTEÚDO
PERÍODO
De
A
CIÊNCIA E PESQUISA

Laboratório do PCT Guamá avalia qualidade e potencial de óleo usado por comunidades da Ilha do Marajó

Estudo foi publicado em uma revista internacional e analisa formas de extração do produto e usos medicinais entre marajoaras

Por Governo do Pará (SECOM)
01/09/2026 10h48

Pesquisadores do Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá avaliaram como diferentes técnicas de extração do “óleo de bicho”, extraído de larvas de besouro encontradas nas sementes do tucumã, interferem na qualidade do produto. A pesquisa foi publicada pela revista ACS Omega, da American Chemical Society, uma das principais organizações científicas do mundo na área de química.

O estudo comparou três formas de obtenção do óleo, a fritura tradicional, praticada por comunidades da ilha do Marajó; a prensagem mecânica; e a extração assistida por ultrassom, técnica que permite trabalhar em temperaturas mais baixas.

O objetivo foi verificar a quantidade de óleo que cada método consegue produzir, quais técnicas preservam melhor as características físico-químicas e como os diferentes óleos se comportam quando colocados em contato com células em condições controladas de laboratório.

O estudo reúne pesquisadores do Laboratório de Óleos da Amazônia (LOA), do Centro de Estudos Avançados da Biodiversidade (Ceabio), vinculados à Universidade Federal do Pará (UFPA) e instalados no PCT Guamá, em parceria com a Universidade do Estado do Pará (Uepa). 

Formas de extração e benefícios

Gabriel Araújo de Jesus, pesquisador do LOA e responsável pela pesquisa, explica que a fritura apresentou o maior rendimento de óleo extraído. Quando foram avaliados indicadores de qualidade do óleo, a técnica de ultrassom foi a que apresentou os menores índices de acidez e oxidação. “O mais interessante é justamente mostrar que existem vantagens e limitações, um método pode proporcionar maior rendimento, enquanto outro pode preservar melhor determinadas características do óleo”.

Na ilha do Marajó, a extração do óleo faz parte dos conhecimentos e das práticas tradicionais de comunidades e têm importância econômica, principalmente nos municípios de Soure e Salvaterra. O produto costuma ser utilizado em preparações associadas a usos medicinais, cosméticos e também na alimentação.

Os pesquisadores destacam que muitas das propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e cicatrizantes atribuídas ao óleo, com base no conhecimento tradicional, ainda não têm comprovação científica, mas a pesquisa representa um avanço na caracterização científica de um produto associado à cultura e à economia de comunidades do Marajó.

Para Gabriel de Jesus, a pesquisa avançou em etapas importantes antes de qualquer aplicação terapêutica. O estudo caracteriza o óleo, avalia sua qualidade e estabilidade, analisa seu comportamento em modelos celulares e apresenta potencial para aplicações cosméticas, dermatológicas e biotecnológicas. O trabalho dos pesquisadores do PCT Guamá inicia uma base de conhecimento científico para compreender quais aplicações o produto realmente pode ter.

"Os resultados abrem caminho para novas investigações sobre seu uso em produtos cosméticos, dermatológicos e biotecnológicos, mas estudos adicionais serão necessários para avaliar segurança, estabilidade e eficácia antes de qualquer aplicação terapêutica. Não realizamos um ensaio específico de cicatrização, ela não foi diretamente avaliada neste trabalho”. 

Testes de acidez e celular
As análises mostraram também que todos os óleos apresentaram níveis de acidez superiores aos limites recomendados para óleos comestíveis, o que está relacionado à degradação das larvas durante a coleta, o transporte e o processo de extração. “Fatores como o tempo e as condições de armazenamento da matéria-prima influenciam bastante na qualidade final do óleo. Então, esse resultado nos mostrou uma variável importante que precisa ser controlada em estudos e aplicações futuras”, acrescenta.

Outra etapa da pesquisa avaliou como células de pele e células de melanoma em camundongos respondiam à exposição aos diferentes óleos. A análise considerou a viabilidade celular e a expressão de alguns genes envolvidos no controle da proliferação celular.

O trabalho identificou que algumas respostas variaram de acordo com o tipo de célula e também com o óleo avaliado. “São resultados interessantes, mas ainda iniciais e que precisam ser aprofundados antes de qualquer relação com uma possível atividade anticâncer”, afirma Gabriel.

O artigo publicado na revista internacional é resultado da pesquisa de mestrado de Gabriel. Na etapa atual do estudo, desenvolvida no doutorado, a proposta é desenvolver biomateriais contendo diversos óleos amazônicos, incluindo o óleo de bicho. "Um dos principais pontos a serem destacados é justamente o fato de que é conhecimento científico produzido dentro de laboratórios da UFPA no Parque, a partir de um produto da Amazônia, com uma pesquisa feita por pesquisadores da Amazônia, e que agora ganha visibilidade global”, afirma Luís Adriano, pesquisador do LOA.

Renata Noronha, orientadora de Gabriel Jesus, no Programa de Pós-Graduação em Neurociências e Biologia Celular, ressalta a importância da aproximação da pesquisa com a comunidade. “Este estudo representa um avanço importante na integração entre conhecimento tradicional e ciência, abrindo caminho para o uso sustentável e inovador do óleo de bicho”, declarou.