Pará avança na preservação da floresta com incentivo à produção sustentável nos municípios
Ações integradas de regularização territorial e pagamento por serviços ambientais garantem a valorização de comunidades e agricultores familiares
A Amazônia é floresta, rios e biodiversidade, mas também é formada por cidades, comunidades e milhares de famílias que vivem e produzem em seu território. No Pará, proteger esse patrimônio significa trabalhar para que a conservação ambiental caminhe ao lado da geração de renda, da produção sustentável e da melhoria da qualidade de vida da população.
Neste Dia da Amazônia, celebrado em 5 de setembro, o governo do Pará reforça essa estratégia por meio do Plano Estadual Amazônia Agora (PEAA), principal plataforma de ações do Estado para promover a redução sustentada do desmatamento e avançar na construção de uma economia de baixo carbono.
Criado em 2020, o plano reúne diferentes políticas públicas para enfrentar um dos maiores desafios da região: manter a floresta viva ao mesmo tempo em que são criadas oportunidades para as pessoas que vivem e produzem na Amazônia.
A atuação combina o combate ao desmatamento ilegal e a outros crimes ambientais, o estímulo a cadeias produtivas sustentáveis e à valorização dos ativos ambientais e de quem protege e vive a floresta, por meio da bioeconomia, a redução da emissão de carbono, além do fortalecimento da regularização ambiental e territorial dos produtores rurais.
Os resultados aparecem nos indicadores ambientais. Em 2025, o Pará registrou redução de 14% na taxa de desmatamento, resultado que elevou para 58% a queda acumulada desde o início da implantação do Amazônia Agora. No mesmo ano, o Estado também reduziu em 67% os focos de queimadas em comparação com 2024, passando de 55.298 para 18.367 registros.
Para o secretário de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade, Raul Protázio Romão, os avanços demonstram a importância de uma política que associe proteção ambiental, presença do Estado e desenvolvimento. “Proteger a Amazônia exige enfrentamento aos crimes ambientais, monitoramento e presença do Estado, mas também exige criar oportunidades para quem vive e produz nesse território. O Amazônia Agora integra essas diferentes frentes para mostrar que é possível conservar a floresta, produzir de forma sustentável, gerar renda e melhorar a vida das pessoas. É esse modelo de desenvolvimento que queremos fortalecer no Pará”, destaca o secretário.
Floresta conservada também gera renda
Uma das estratégias que traduzem essa proposta é o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). A política reconhece e incentiva quem contribui diretamente para conservar e recuperar os recursos naturais, transformando a proteção da floresta também em oportunidade de renda para agricultores familiares e produtores rurais.
Por meio do projeto Valoriza Territórios Sustentáveis, agricultores recebem incentivos para desenvolver e fortalecer práticas de conservação, recuperação e regeneração ambiental em suas propriedades. A proposta cria um ciclo no qual preservação e produção deixam de ser vistas como caminhos opostos.
Em Tomé-Açu, Maria de Nazaré da Silva Souza, agricultora familiar e presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Tomé-Açu (STTR-Tomé-Açu), percebe essa transformação dentro da própria propriedade.
A família já trabalhava com o manejo do açaí nativo e, com o apoio recebido, passou a fortalecer o reflorestamento, ampliar o plantio de açaí e investir em insumos para melhorar a produção. Para Maria de Nazaré, porém, uma das mudanças mais importantes pode ser percebida na própria paisagem, com a recuperação de igarapés e olhos d'água. “Fico muito feliz em saber que estamos sendo pagos por preservar o meio ambiente. Ver nossos igarapés e olhos d’água voltando a jorrar da terra não tem preço. É a confirmação de que a agricultura sustentável existe, com o agricultor garantindo o seu ganha-pão e a natureza sendo restaurada e preservada”, afirma.
A agricultora também destaca que manter a floresta conservada é fundamental para garantir a continuidade da própria produção rural. “Preservando a natureza, conseguimos produzir. Preservando a floresta, conseguimos colher o açaí, o cacau e a pimenta-do-reino. O PSA ajuda muito o trabalhador do campo e precisa continuar, porque faz com que todos se unam em prol da natureza”, completa.
Regularização para produzir e conservar
Outro eixo fundamental do Amazônia Agora é a regularização ambiental e territorial, fortalecida pelo programa Regulariza Pará. A iniciativa busca apoiar produtores e comunidades rurais na adequação ambiental dos imóveis, oferecendo mais segurança para quem produz dentro da legalidade e criando condições para ampliar o acesso a políticas públicas, mercados, crédito e outras oportunidades.
O Cadastro Ambiental Rural (CAR) é um dos principais instrumentos desse processo. A partir da análise das informações dos imóveis, o Estado consegue identificar áreas de preservação, eventuais passivos ambientais e orientar as medidas necessárias para a regularização.
Mais do que uma obrigação administrativa, a regularização permite que produtores planejem melhor suas propriedades, tenham maior segurança para desenvolver suas atividades e conciliem a produção com a conservação da vegetação nativa.
Essa realidade também faz parte da trajetória da Comunidade de Campo Limpo, onde produtores e produtoras rurais organizados coletivamente avançaram no processo de regularização ambiental.
Para Josiele Seixas, presidente da Associação de Produtores e Produtoras Rurais da Comunidade de Campo Limpo (APROCAMP), o CAR representa novas oportunidades, mas também simboliza o reconhecimento de uma relação construída há gerações entre comunidade, produção e território. “Esse CAR vai além da regularização ambiental e do acesso a novas oportunidades para os produtores. Ele representa o compromisso da comunidade com a preservação do meio ambiente e a proteção do nosso território. É também o reconhecimento de uma trajetória construída por gerações de homens e mulheres que mantiveram essa comunidade viva e produtiva. Agora, reafirmamos a responsabilidade de continuar produzindo de forma sustentável, cuidando da floresta e preservando esse legado", diz.
Bioeconomia transforma biodiversidade em oportunidades
Fazer da floresta viva uma fonte de desenvolvimento também passa pela valorização econômica e escalabilidade da biodiversidade amazônica. No Pará, essa estratégia é conduzida pelo Plano Estadual de Bioeconomia (PlanBio), política que integra conhecimento científico e tradicional, inovação, fortalecimento das cadeias produtivas e geração de oportunidades para povos e comunidades tradicionais, agricultores familiares, cooperativas, empreendedores e empresas.
O PlanBio está estruturado em frentes que envolvem pesquisa, desenvolvimento e inovação, valorização do patrimônio cultural e genético amazônico e fortalecimento das cadeias produtivas e dos negócios sustentáveis. Entre as ações estão: capacitação, apoio a cooperativas e associações, acesso a mercados, estímulo à inovação e criação de instrumentos para agregar valor aos produtos da sociobiodiversidade.
Uma das principais estruturas para colocar essa política em prática é o Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, instalado no Complexo Porto Futuro, em Belém. O espaço funciona como ambiente de conexão entre comunidades, cooperativas, universidades, centros de pesquisa, startups, empresas e investidores, criando condições para transformar produtos e conhecimentos amazônicos em negócios sustentáveis com maior valor agregado.
O complexo reúne espaços voltados à sociobioeconomia, inovação, negócios e gastronomia, além de laboratório-fábrica destinado à pesquisa, ao desenvolvimento e ao aprimoramento de produtos das cadeias de alimentos, bebidas, cosméticos, fármacos e química fina.
Entre as ações estratégicas estão o apoio ao desenvolvimento de protótipos, melhoria de processos produtivos, testagem de produtos, aumento de escala, qualificação da produção e suporte para certificação e acesso a novos mercados.
O Parque também vem desenvolvendo atividades de capacitação voltadas a cooperativas, associações e comunidades, com foco em melhorar o beneficiamento de frutos e outros produtos amazônicos, ampliar a qualidade da produção e aumentar o valor agregado das cadeias da bioeconomia.
Para o secretário Raul Protázio Romão, a bioeconomia é uma das ferramentas para transformar a biodiversidade amazônica em desenvolvimento econômico sem romper a relação de conservação com o território. “A bioeconomia mostra que a floresta viva pode gerar desenvolvimento, emprego, renda, conhecimento e inovação. O nosso desafio é fazer com que a riqueza da biodiversidade amazônica se transforme em oportunidades principalmente para quem vive nos territórios e historicamente protege esses recursos. Com o PlanBio e o Parque de Bioeconomia, estamos criando estrutura para aproximar conhecimento, tecnologia, produção e mercado, agregando valor e escalando os produtos da nossa floresta, fortalecendo uma economia genuinamente amazônica”, destaca.
Comunidades que transformam conservação em desenvolvimento
A proteção da Amazônia também passa por iniciativas construídas dentro das próprias comunidades, onde conhecimentos transmitidos entre gerações se encontram com novas oportunidades proporcionadas pela bioeconomia e pelo turismo sustentável.
Na região do Arapiuns, em Santarém, a Comunidade Coroca desenvolve, há mais de duas décadas, projetos voltados ao manejo sustentável de abelhas sem ferrão e à conservação de tartarugas-da-Amazônia.
A Associação dos Produtores Rurais de Coroca, Comunidade de Igarapé e Pescadores (Aprucipesc), criada em 1993, atua na organização comunitária e no incentivo à preservação da fauna, da flora, dos recursos hídricos e dos modos de vida tradicionais. Atualmente, essas atividades também impulsionam a bioeconomia local e atraem visitantes interessados nas experiências de turismo de base comunitária desenvolvidas no território.
O projeto de meliponicultura reúne atualmente 12 famílias que realizam o manejo de abelhas sem ferrão em seus quintais. A comunidade também trabalha na estruturação de uma Casa do Mel, que permitirá melhorar o processamento da produção, agregar valor e avançar na certificação de produtos derivados do mel, do pólen e da própolis.
Outra experiência desenvolvida pela comunidade é o Projeto de Conservação de Tartarugas-da-Amazônia, iniciado ainda na década de 1990. Desde 2019, as tartarugas passaram a se reproduzir naturalmente no lago da comunidade, resultado que motivou a realização anual da soltura de filhotes no Rio Arapiuns. A atividade reúne conservação das espécies, educação ambiental e turismo sustentável.
Para Larissa Figueiredo de Sousa, coordenadora da Comunidade Coroca, o fortalecimento das iniciativas locais permite que o trabalho de conservação realizado pelas famílias também crie novas oportunidades econômicas. “As políticas públicas desenvolvidas pela Semas fortalecem todas as nossas atividades como a produção do mel, melhorar a estrutura dos nossos projetos, a conservação das tartarugas e oferecer melhores condições para receber os visitantes que chegam à comunidade. É um incentivo que valoriza o esforço das famílias, gera novas oportunidades de renda e nos ajuda a manter viva a relação de cuidado que sempre tivemos com a floresta e com o Rio Arapiuns", destaca.
Das propriedades rurais de Tomé-Açu às comunidades do Baixo Amazonas, as experiências mostram diferentes formas de cuidar da mesma Amazônia. Ao integrar fiscalização, regularização, conservação, bioeconomia e incentivo à produção sustentável, o Amazônia Agora busca fazer da floresta viva não apenas um compromisso ambiental, mas parte de um modelo de desenvolvimento capaz de gerar oportunidades para quem vive no território e ajudar a garantir a Amazônia para as próximas gerações.

