Oficina para prevenção e manejo do fogo prepara 21 municípios no Pará
Tomé-Açu reuniu participantes de municípios mais afetados pelas mudanças climáticas no Estado, fortalecendo ações de prevenção a queimadas e incêndios florestais e encerrando ciclo de capacitação com quatro edições já realizadas
Servidores públicos, brigadistas, agricultores e representantes da sociedade civil se reuniram na Usina da Paz de Tomé-Açu, nos dias 2 e 3 de setembro, para participar da Oficina de Manejo Integrado do Fogo na Agricultura Familiar. A programação no Nordeste paraense encerrou o primeiro ciclo de capacitação voltado ao fortalecimento da prevenção, do planejamento e da atuação integrada diante dos riscos de queimadas e incêndios florestais em todo o Pará.
A iniciativa integra as ações do Programa Estadual de Prevenção e Combate às Queimadas e Incêndios Florestais (Pepif), coordenado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas), que busca ampliar o conhecimento técnico e estimular a construção de estratégias locais de manejo integrado do fogo, especialmente em territórios com forte presença da agricultura familiar.
O cenário de atenção a queimadas e incêndios florestais em todo o Pará ganha reforço com as projeções associadas ao fenômeno climático El Niño para os últimos meses de 2026 e também para 2027. Em caráter preventivo, o cenário motivou o Decreto Estadual nº 5.606, de 24 de agosto de 2026, que declarou situação de alerta climático e ambiental em todo o Pará, por 180 dias.
As previsões apontam para risco de redução das chuvas, prolongamento da estiagem e da seca, diminuição da disponibilidade de água, aumento das temperaturas e maior possibilidade de ocorrência de incêndios florestais, além de impactos sobre a qualidade do ar e as atividades produtivas. Diante da perspectiva de intensificação dessas condições nos próximos meses, o Governo do Estado vem adotando medidas antecipadas de prevenção, preparação e resposta para reduzir os impactos sobre a população, os municípios, a agricultura familiar e os recursos naturais.
Ciclo de preparação
A Oficina de Manejo Integrado do Fogo na Agricultura Familiar realizada em Tomé-Açu foi a quarta oficina realizada no Estado este ano. As etapas anteriores ocorreram nos municípios de em Anapu, Uruará e Santarém, no Oeste do Pará. Juntas, as quatro edições reuniram participantes de 21 municípios, que estão entre os mais afetados pelas mudanças climáticas no território paraense, entre servidores públicos municipais e estaduais, brigadistas, agricultores e representantes da sociedade civil.
Para Diana Castro, coordenadora do Programa Estadual de Prevenção e Combate às Queimadas e Incêndios Florestais (Pepif) na Semas, as oficinas ajudam a transformar conhecimento técnico em capacidade de atuação nos territórios. Ela destacou que esse primeiro ciclo foi pensado para aproximar as estratégias estaduais da realidade dos municípios e das comunidades.
"O manejo integrado do fogo exige planejamento, prevenção e participação de diferentes atores. Quando capacitamos servidores, brigadistas, agricultores e representantes da sociedade civil, fortalecemos uma rede capaz de identificar riscos, planejar ações e atuar de forma mais eficiente para evitar que o fogo saia do controle e se transforme em incêndio florestal”, detalha Diana.
Planejamento e prevenção
Nos dois dias de programação, os participantes discutiram o cenário atual das mudanças climáticas, conceitos e práticas relacionadas ao Manejo Integrado do Fogo e a prevenção e gestão de riscos, além de alternativas sustentáveis ao uso do fogo nas atividades produtivas.
O Corpo de Bombeiros Militar e a Defesa Civil contribuíram com orientações sobre prevenção e gestão de riscos. A oficina também apresentou o modelo dos Planos Municipais de Manejo Integrado do Fogo (PMMIF) e um painel de gestão do fogo baseado em diagnóstico técnico. São instrumentos que podem auxiliar os municípios na organização e no planejamento das ações, conforme as características e necessidades de cada território.
Os participantes ainda conheceram possibilidades de formação de arranjos institucionais entre poder público, iniciativa privada e sociedade civil, e participaram de atividades em grupo para aplicar, na prática, o modelo dos PMMIF a partir dos conhecimentos discutidos durante a capacitação.
'Proteger e Semear'
Durante a oficina, a Secretaria de Estado da Agricultura Familiar (Seaf) apresentou o Projeto Proteger e Semear, iniciativa voltada ao fortalecimento da resiliência climática da agricultura familiar paraense e ao apoio de famílias rurais afetadas por incêndios, seca e estiagem.
Com investimento de R$ 5 milhões, por meio do Fundo Estadual de Meio Ambiente (Fema), o projeto terá prazo de execução de dez meses, e prevê beneficiar 6,9 mil famílias em 35 municípios.
A iniciativa foi estruturada em várias frentes de atuação. Uma delas é a prevenção a incêndios e aos efeitos da estiagem, com aquisição de kits compostos por equipamentos, como motobombas, caixas d’água, mangueiras, Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e pulverizadores costais.
Outra frente será voltada à segurança hídrica para consumo humano, com a disponibilização de 1,5 mil filtros de nanomembrana para produção de água potável.
O "Proteger e Semear" também prevê ações para a recuperação da capacidade produtiva das famílias, incluindo sementes de hortaliças e grãos, insumos e apoio ao preparo de áreas produtivas.
A estratégia inclui ainda a aquisição de máquinas e equipamentos para apoiar atividades produtivas nos territórios, como motocultivadores agrícolas, roçadeiras, equipamentos para modernização de casas de farinha, unidades de proteína animal e infraestrutura interna de apoio às ações do projeto. Os 35 municípios abrangidos estão nas regiões de Integração Baixo Amazonas, Tapajós, Guamá, Rio Capim, Marajó, Xingu, Tocantins e Lago de Tucuruí.
Segundo Cristiano Martins, secretário-adjunto da Seaf, a iniciativa amplia a capacidade de resposta do Estado ao atuar em etapas diversas dos impactos climáticos. “O 'Proteger e Semear' foi estruturado para apoiar as famílias antes, durante e depois dos períodos mais críticos. Vamos trabalhar na prevenção aos incêndios e impactos da estiagem, no acesso à água potável e também na recuperação produtiva de quem eventualmente tiver perdas. É uma estratégia que une proteção, segurança hídrica e produção de alimentos para fortalecer a agricultura familiar”, informou o secretário-adjunto.
Conhecimento contra a estiagem
Entre os participantes da oficina estava Maria de Nazaré da Silva Souza, agricultora familiar e presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Tomé-Açu (STTR). “Essa oficina prepara a gente para esse momento de estiagem e seca. Essa parceria com a Semas nos dá a expectativa de enfrentar esse período difícil com apoio e capacitação, para que todos os agricultores familiares saibam como realizar o manejo do fogo de forma adequada e preservar a floresta”, disse Maria de Nazaré.
A participação de agricultores e lideranças locais busca aproximar o conhecimento técnico das práticas adotadas no dia a dia das propriedades e comunidades rurais, ampliando a troca de experiências sobre prevenção, uso responsável do fogo e alternativas sustentáveis de produção.
Para Elielton Santa Rosa, agricultor indígena e liderança na aldeia Wyrahu Har-te, em Tomé-Açu, os conhecimentos compartilhados na oficina também poderão fortalecer as práticas adotadas dentro da comunidade. “O nosso povo é um dos guardiões da floresta, e estar aqui nesta oficina me capacitou ainda mais para realizar todo o tratamento da nossa roça de forma mais segura. Vou levar esses ensinamentos e transmitir para toda a comunidade que mora na minha aldeia”, garantiu Elielton.
Participaram da programação em Tomé-Açu a coordenadora do Pepif na Semas, Diana Castro; o secretário-adjunto da Seaf, Cristiano Martins; o coordenador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, Edivan Carvalho; representantes do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil, e servidores públicos municipais e estaduais, brigadistas, agricultores e representantes da sociedade civil.
Texto: Arthur Sobral/Semas

