Pesquisa da Universidade do Estado do Pará comprova que ir a pé ou de bicicleta para a aula melhora a saúde de estudantes
Estudo da Uepa, premiado nacionalmente, aponta que o deslocamento físico diário fortalece o coração e combate o sedentarismo entre jovens de escolas públicas
Uma pesquisa da Universidade do Estado do Pará (Uepa) realizada com estudantes adolescentes mostra que o ato de se deslocar para a escola de forma ativa, caminhando ou pedalando, traz benefícios significativos para a aptidão cardiorrespiratória dos estudantes do Ensino Médio. A pesquisa “O Impacto da Viagem Ativa no Trajeto Escolar sobre os Níveis de Aptidão Cardiorrespiratória e de Atividade Física Habitual de Adolescentes”, desenvolvida pelos alunos Marcos Vinnicius da Silva Duarte e Ana Kelly Gomes de Oliveira, e orientada pelo professor José Roberto Zaffalon Júnior, obteve o primeiro lugar do curso de Educação Física no prêmio Melhor Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) 2024/2025 da Uepa.
Este estudo científico do Campus IX da Uepa analisa como a viagem ativa, como caminhar ou pedalar até a escola, influencia a aptidão cardiorrespiratória e o nível de atividade física em adolescentes. A pesquisa, realizada com adolescentes de 12 a 18 anos de escolas públicas de Altamira, no Sudoeste do Pará, apontou que o deslocamento ativo é uma estratégia eficaz para combater o sedentarismo e melhorar o consumo máximo de oxigênio (VO₂máx), um indicador vital para a saúde a longo prazo. O estudo mostra relevância por abordar questões relacionadas à saúde e ao bem-estar dos adolescentes, especialmente em alusão ao Dia do Adolescente, celebrado em 21 de setembro, e ao Dia Nacional da Saúde de Adolescentes e Jovens, em 22 de setembro. A pesquisa também ganha destaque em relação ao Dia do Profissional de Educação Física, que ocorreu em 1º de setembro, ao evidenciar a importância da produção científica universitária para ampliar conhecimentos e fortalecer ações de promoção da saúde e da atividade física entre adolescentes e jovens.
A pesquisa de campo avaliou 205 estudantes de Altamira, utilizando questionários e a medição do volume máximo de oxigênio. Os resultados demonstram que jovens que utilizam meios de transporte humanos possuem indicadores de saúde superiores aos que dependem de transporte passivo. Mesmo entre alunos sedentários, o deslocamento ativo proporcionou uma melhor capacidade cardiovascular, sendo como uma ferramenta eficaz contra o sedentarismo. Assim, integrar o movimento físico à rotina escolar é uma estratégia viável para promover o bem-estar e a saúde nessa faixa etária.
Para a metodologia da pesquisa foi feita a divisão em quatro grupos baseados no uso de transporte ativo e prática de atividade física habitual. Como ferramenta de medição foi feita a utilização do dispositivo Polar V800 para aferir o volume máximo de oxigênio (VO₂máx). Quanto ao tipo de transporte utilizado para ir à escola, 59,5% dos adolescentes usam a viagem ativa (VA), e 40,5% o não ativo. Entre os jovens do sexo masculino, 72,73% utilizam o transporte ativo e 27,27% não ativo. Do sexo feminino, 52,83% utilizam a VA e 47,17% o não ativo. Além disso, adolescentes que combinavam deslocamento ativo com outras atividades físicas apresentaram maiores níveis de atividade física habitual e VO₂máx.
Mesmo entre os classificados insuficientemente ativos, aqueles que se deslocavam ativamente para a escola tiveram melhor aptidão cardiorrespiratória do que os grupos que não utilizavam esse tipo de deslocamento.
De acordo com o professor orientador da pesquisa, José Roberto, isso mostra um comportamento que já faz parte da realidade de muitos estudantes de Altamira e que pode ser estimulado e melhor estruturado. "Um dos aspectos mais importantes da pesquisa é mostrar que uma atitude relativamente simples do cotidiano, como ir caminhando ou de bicicleta para a escola, pode representar uma oportunidade adicional de atividade física e estar associada a melhores condições cardiorrespiratórias. Isso é especialmente relevante na adolescência, período em que há uma preocupação crescente com a redução dos níveis de atividade física e o aumento do comportamento sedentário. Os resultados também mostram que o deslocamento ativo não deve necessariamente substituir outras práticas de atividade física, mas pode se somar a elas e contribuir para um estilo de vida mais ativo", ressaltou.
O tema também foi baseado nas vivências dos autores que realizaram todo o Ensino Fundamental e Médio utilizando o transporte ativo. "A definição do tema foi muito fundamentada nas experiências de vida que eu e a minha colega, Ana Kelly, tivemos em relação ao uso da viagem ativa para ir até a escola, no trajeto escolar. Concluí o meu Fundamental e Médio todo utilizando bicicleta ou a pé e a minha colega de pesquisa também. Então, a gente queria saber se tinha algum impacto, se tinha alguma coisa realmente muito significativa em utilizar uma viagem ativa durante o trajeto escolar", relatou Marcos Vinnicius. E o estudo mostrou que o uso recorrente da viagem ativa interfere positivamente na saúde do sistema cardiopulmonar dos estudantes, explicou.
Ana Kelly Gomes de Oliveira reforça por experiência própria que a aptidão cardiorrespiratória é o principal indicador de proteção para a saúde de jovens e um escudo contra doenças. "Embora a pesquisa tenha tido como público-alvo os adolescentes, seus resultados contribuem para toda a comunidade. A adoção de hábitos simples, como utilizar o próprio corpo para se locomover, pode reduzir o sedentarismo, melhorar a aptidão cardiorrespiratória e contribuir para a prevenção de doenças cardiovasculares e crônicas etc". Além disso, baixos níveis dessa aptidão estão associados ao aumento de gordura corporal, distúrbios do sono e maior risco de desenvolver doenças cardiovasculares no futuro. O estudo foi publicado e pode ser acessado na Revista Cadernos Cajuína neste link.
A pesquisa, que evidencia como o impacto da viagem ativa no trajeto escolar pode contribuir para a aptidão cardiorrespiratória e os níveis de atividade física habitual dos adolescentes, reforça a importância da prevenção, da ampliação do debate e da criação de políticas públicas voltadas a esse público. De acordo com os pesquisadores, os resultados podem servir de base para que as políticas públicas criem estratégias que tornem o trajeto escolar mais seguro e viável, estimulando o uso da bicicleta e a caminhada entre os estudantes.
"O estudo pode contribuir principalmente para a discussão de políticas e ações de promoção da saúde, mobilidade urbana e ambiente escolar. Incentivar o deslocamento ativo passa também pela necessidade de oferecer condições adequadas e seguras para que adolescentes possam caminhar ou pedalar até a escola, com calçadas, ciclovias, sinalização e segurança no trânsito. Dessa forma, os resultados podem subsidiar ações conjuntas entre as áreas da saúde, educação e planejamento urbano. O próprio estudo aponta que seus achados podem colaborar na elaboração de políticas públicas voltadas a estimular, facilitar e tornar mais seguro o deslocamento ativo", concluiu o professor José Roberto.

