Hospital de Clínicas cria órteses de coxins para ajudar no posicionamento dos pacientes acamados

A imobilidade, fruto do período prolongado de internação, tem ocasionado problemas dermatológicos 

01/06/2020 17h34 - Atualizada em 01/06/2020 18h08
Por Melina Marcelino (HC)

Órteses de coxins são uma espuma em formato de caixa de ovo (colchão) para ajudar no posicionamento dos pacientes acamadosA Síndrome Aguda Respiratória Grave (SRAG) provocada pela Covid-19 tem provocado aumento no tempo de internação dos pacientes acometidos pela doença, se comparado ao período de internação de outros tipos de infecções respiratórias. O tratamento do novo coronavírus requer, em casos mais graves, a internação em leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), porque há necessidade do uso de respirador. A média de internação por Covid-19 dura de 14 a 18 dias, mas em casos ainda mais sérios, ultrapassa os 21. Em outras SRAGs, a média é metade desse tempo.

Outra preocupação dos profissionais de saúde é quanto à imobilidade, fruto do período prolongado, ocasionado pelo conjunto de alterações no indivíduo acamado. Independente da condição inicial, que levou a essa situação, ela pode provocar: problemas circulatórios, dermatológicos, respiratórios e muitas vezes psicológicos. 

Um desses males é a Lesão Por Pressão (LPP). Ela se manifesta, geralmente, sobre as proeminências e bordas ósseas. Isto inclui quadris, cotovelos, ombros, a parte traseira, tornozelos, calcanhares e a parte traseira da cabeça. Se não for tratada adequadamente, pode até haver um aumento no risco de mortalidade. Por isso, é fundamental que os profissionais de saúde estejam atentos e preparados para ofertar os cuidados necessários.

A fim de evitar esse quadro em pacientes acamados, a equipe de Terapia Ocupacional da Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna (FHCGV) criou órteses de coxins, uma espuma em formato de caixa de ovo (colchão), para ajudar no posicionamento dos pacientes acamados. 

A iniciativa tem o objetivo de prevenir o comprometimento da integridade cutânea do paciente, assim como prevenir contraturas, diminuir os riscos de alteração da capacidade funcional, decorrente da limitação de mobilidade, além de manter o alinhamento corporal e permitir a distribuição do peso do corpo de forma adequada na superfície de apoio. A técnica também estimula o sistema cardiovascular e respiratório, proporcionando qualidade de vida e redução do tempo de internação e até de custos hospitalares, ou seja, assim é possível realocar recursos para atender outras pessoas que precisam.

A terapeuta ocupacional Márcia Nunes explica que o paciente com Covid-19 precisa ficar muito tempo na posição prono, ou seja, de peito para baixo, para expandir os pulmões. Essa posição pode ser muito desconfortável e gerar as LPP. 

“Pesquisamos e vimos que isso já estava sendo utilizado em São Paulo. Fizemos algumas alterações, porque queremos dar um conforto maior para pacientes que estão em sofrimento e em longa permanência na UTI. Essas lesões por pressão começam a aparecer porque ele fica muito tempo acamado, então, a gente faz uma avaliação diária da pele do paciente. Se ela começar a ficar vermelha é hora de começar a usar o coxim antes de virar uma ferida, que pode infeccionar, assim, o paciente pode sair mais rápido da UTI, porque se preservar o tecido, o paciente não vai se contaminar e usará menos antibióticos”, garante a terapeuta.

Cuidado sob medida - Maria Ocileide Rodrigues está internada na FHCGV desde o dia 30 de abril e por estar acamada já desenvolveu algumas lesões por pressão, ela é a primeira paciente do hospital a utilizar os coxins. Segundo a filha, Maura Rodrigues, o equipamento vai ajudar muito a mãe.

“Minha mãe tem insuficiência renal crônica, já está internada aqui há mais de um mês, como ela não sai da cama ela desenvolveu algumas feridas nas costas e nos pés. Agora com esse equipamento ela parece estar mais confortável”, relata a filha da paciente. 

Iniciativa previne o comprometimento da integridade cutânea do pacienteAs órteses são confeccionadas sob medida para cada paciente. Elas são feitas utilizando espuma D8, espuma caixa de ovo (colchão), estilete, tesoura, velcro 2,5 cm, cola forte spray, linha, agulha, máquina de costura e tecido napa.

“Essa foi uma demanda da chefia de enfermagem. A FHCGV tem uma Comissão de Prevenção e Tratamento de Feridas (CPTF) e foi constatado que o índice de infecção dos pacientes é grande por conta dessas lesões. Então, começamos a pensar em alternativas usando o coxim”, finaliza a terapeuta ocupacional.