Fiscalização dos consumidores é fundamental para prevenir a transmissão da doença de Chagas

Treinamento de batedores de açaí na capital e no interior, em boas práticas de manipulação de alimentos, tem ajudado a melhorar a vigilância sanitária

19/10/2020 16h35 - Atualizada em 20/10/2020 10h44
Por Roberta Vilanova (SESPA)

Principal alimento da dieta paraense, açaí tem safra de junho a novembro, quando também aumentam os casos de doença de Chagas O consumidor é um importante aliado na fiscalização da adequada manipulação de alimentos, em especial nos pontos de venda de açaí, para a prevenção da transmissão da doença de Chagas por alimentos. A população pode informar às autoridades sanitárias possíveis casos da doença, o que ajuda no controle da endemia no estado.  O alerta é da Vigilância Sanitária Estadual (Visa) da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa).

Nutricionista da Visa, Dorilea Pantoja diz que o Decreto Estadual N° 326/2012 é o marco regulatório das ações de Vigilância Sanitária junto aos batedores artesanais de açaí, tornando obrigatória uma série de etapas de processamento do fruto.

“Atuamos, principalmente, na capacitação de batedores artesanais de açaí, das equipes Vigilância Sanitária dos municípios e dos Centros Regionais de Saúde sobre as Boas Práticas de Manipulação do açaí”, informou.Degustação de açaí na capacitação feita pela Visa no Acará

As etapas consistem no peneiramento para retirar a sujeira, inclusive insetos como o barbeiro transmissor da doença de Chagas; lavagens, em três etapas, com água potável esfregando-se o fruto para retirada de resíduos; imersão em uma solução de água sanitária e água potável, na proporção de 7,5 ml para um litro, por 15 minutos; e o enxágue dos frutos, para a remoção do resíduo de cloro.

Depois, explica Dorilea, é feito o branqueamento, para a redução do risco da doença de Chagas, quando os frutos são mergulhados em água aquecida a 80°C (não pode ferver) por 10 segundos e depois em água fria.

“Após essa etapa o fruto é despolpado e envasado, devendo ser mantido refrigerado e sua comercialização deverá se dar no prazo máximo de 24h após processado”, enfatizou.

O último treinamento foi de 12 a 16 de outubro, no município do Acará, capacitando 75 batedores de açaí e 57 agentes comunitários de saúde.

RISCO

O farmacêutico da Visa, Ednei Amador, lembra que o período menos chuvoso e mais seco, conhecido como “verão amazônico”, entre junho e novembro, coincide com o aumento da produção e a redução do preço do açaí, alimento de grande importância no contexto econômico, social e cultural, e de elevado valor nutricional. 

No entanto, ele alerta que esse também é o período em que há maior registro de casos e surtos de doença de Chagas aguda no Pará, responsável por 80% dos casos confirmados no Brasil nos últimos 12 anos, conforme dados do Ministério da Saúde.  

“É importante alertar que 85% dos casos têm como provável via de infecção a oral, geralmente associada ao consumo de açaí contaminado com Trypanosoma cruzi, devido à presença de barbeiro ou de suas fezes contaminados. Daí a importância da capacitação dos batedores de açaí, conduzida pela Visa Estadual”, disse Ednei Amador.

CASOS 

Palestra sobre doença de Chagas durante o treinamento no Acará Segundo dados da Coordenação Estadual de Doença de Chagas, entre janeiro e agosto de 2020, foram confirmados 103 casos, contra 130 registrados em 2019, uma queda de 20,77%.  

No entanto, essa redução pode estar associada à subnotificação dos casos pelos municípios em função da pandemia de Covid-19, pois alguns sintomas da doença são semelhantes aos da doença de Chagas, principalmente na fase aguda.

“Isso se torna um problema, porque, quando não tratado e acompanhado adequadamente, o paciente, ao evoluir para a fase crônica, tem maiores chances de desenvolver problemas do coração ou do intestino”, alertou Ednei Amador. 

Já em setembro, foram registrados nove casos de doença de Chagas, seis dos quais em Muaná, três em Belém e três em São Sebastião da Boa Vista, provavelmente associados à ingestão de açaí contaminado devido à manipulação inadequada.

A Coordenação Estadual de Doença de Chagas monitora esses casos junto aos municípios e aos Centros Regionais de Saúde para investigar a suspeita de novas notificações e encaminhar os pacientes com diagnóstico confirmado ao centro de referência para tratamento e acompanhamento, que é o Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB).

MAIS

A doença de Chagas é uma infecção causada por um parasita, o Trypanosoma cruzi. A doença apresenta duas fases: uma aguda e uma crônica. Na fase aguda, os sintomas mais comuns são febre persistente, geralmente por mais de sete dias, sensação de fraqueza, inchaço das pernas e/ou do rosto, palpitações. Também pode ocorrer vômito, dor de barriga e diarreia. Após a fase aguda, o paciente entra na fase crônica, e se não tratado adequadamente, pode evoluir para a forma em que há comprometimento do coração ou do intestino, ou de ambos.

CONTÁGIO

A transmissão da doença de Chagas pode ocorrer de diferentes formas: a vetorial, que ocorre quando o barbeiro, ao se alimentar, defeca e a pessoa picada coça levando o Trypanosoma cruzi presente nas fezes para a corrente sanguínea; a vertical, quando ocorre transmissão da doença da mãe para o bebê durante a gravidez; a transfusional; a acidental, que ocorre quando o Trypanosoma cruzi entra na corrente sanguínea por meio de ferimentos da pele ou da mucosa do olho ou da boca devido a acidentes com respingos de sangue, com material como agulhas contendo sangue infectado ou causados durante o preparo da carne de animais de caça contaminados com o parasito.

Mas a transmissão oral é a principal forma de transmissão da doença de Chagas no Pará, que ocorre pelo consumo de quaisquer alimentos não manipulados adequadamente e contaminados pelo Trypanosoma cruzi.

TRATAMENTO

Nem todos os pacientes apresentam sintomas, mas todos os diagnosticados com a doença devem ser tratados para evitar complicações cardiológicas ou gastrintestinais. Esses pacientes devem ser acompanhados durante cinco anos. O acompanhamento é realizado pelo HUJBB e pelo serviço de Atenção Primária à Saúde, com exames conforme o protocolo estabelecido pelo Ministério da Saúde. Pacientes que apresentam complicações devem ser acompanhados por médicos especialistas.

Serviço:

Para dúvidas ou mais informações, entrar em contato com o Departamento de Estadual de Vigilância Sanitária pelo telefone (91) 4006-4883 ou com o Departamento de Controle de Endemias pelo telefone (91) 4006-4823.