Pesquisadores do PCT Guamá fazem descobertas inéditas sobre o genoma e benefícios do açaí
Mapeamento genético pioneiro e estudos neuroquímicos fortalecem a bioeconomia paraense e revelam potencial do superfruto no combate à ansiedade
O fruto da palmeira Euterpe oleracea, conhecida popularmente como açaízeiro, é peça fundamental na identidade gastronômica local. Recentemente, cientistas do Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá apresentaram novas descobertas sobre o superfruto amazônico que, desde 2010, tem conquistado os mercados nacional e internacional.
Estudos desenvolvidos em laboratórios do PCT Guamá possibilitaram o primeiro sequenciamento completo do genoma do açaizeiro e a avaliação dos efeitos fisiológicos do consumo nutricional do suco clarificado no comportamento e na neuroquímica animal. “O peso histórico é enorme, tanto do ponto de vista da soberania científica quanto da identidade”, destacam os especialistas Diego Assis, do Laboratório de Engenharia Biológica (EngBio), e Taiana Simas, do Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA).
“O açaí é o principal produto da bioeconomia da Amazônia brasileira, mas, historicamente, víamos nossa biodiversidade ser sequenciada e patenteada por instituições do exterior. Agora, liderar esse mapeamento aqui, utilizando uma tecnologia de ponta, de forma pioneira no Brasil, mostra que não somos apenas exportadores de matéria-prima, mas sim produtores de ciência e tecnologia de alto nível”, completa Diego Assis, líder da equipe responsável pelo sequenciamento genético.
Pesquisas fortalecem uma economia sustentável
O aumento da demanda pelo fruto, registrado nos últimos anos, levou à busca pela ampliação do cultivo para abastecer os comércios local, nacional e internacional. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil alcançou a marca de 1,6 milhão de toneladas em 2023, gerando uma receita superior a R$ 8 milhões naquele ano. O Estado do Pará é o maior produtor do mundo, representando mais de 90% do volume nacional, com destaque para os municípios de Igarapé-Miri, Cametá e Abaetetuba, segundo informações da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa).
Esse avanço dos açaizais sobre novas áreas, como os terrenos de terra firme, foi batizado pelos estudiosos do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia “Perturbações antrópicas, novas trajetórias florestais e sustentabilidade na Amazônia” (INCT NEXUS) como “açaização”. Ainda segundo os autores, isso tem representado um novo desafio socioeconômico e ambiental para populações, academia e governos da Amazônia.
No entanto, mesmo com um aumento significativo da produção, os efeitos da alta demanda, somada à carência do alimento no período de entressafra, desestabilizam a cadeia produtiva da região. Por isso, a descoberta compartilhada entre membros do EngBio e da Embrapa pode ajudar a melhorar a produtividade e a qualidade da palmeira.
“O genoma é como o manual de instruções da planta. Com o seu sequenciamento completo, podemos identificar marcadores genéticos exatos para características desejáveis. Isso significa que, no futuro, poderemos selecionar de forma muito mais rápida e precisa as mudas que são mais resistentes a secas ou doenças, garantindo mais segurança e rendimento para o produtor”, destaca Diego.
Além de mapear todo o DNA do açaizeiro, o grupo de cientistas do EngBio utilizou a tecnologia RNA-Seq para compreender os mecanismos moleculares que diferenciam o amadurecimento das variedades roxa e branca. “Durante o amadurecimento do tipo roxo, principalmente entre 70 e 130 dias após a floração, a enzima $(F3'5'H)$ é altamente ativada. É ela que impulsiona a produção de antocianinas, os pigmentos escuros que conferem a cor e os benefícios antioxidantes. Já na variedade branca, os genes responsáveis por essa pigmentação sofrem uma regulação negativa, ou seja, são 'desligados' precocemente, impedindo a mudança de coloração”, explica o pesquisador.
Felicidade sabor açaí
Rica em compostos fenólicos, substâncias associadas à atividade anti-inflamatória e antioxidante, a iguaria despertou também a atenção de pesquisadores do CVACBA, como Taiana Simas, cuja pesquisa de doutorado investigou os efeitos neurocomportamentais do suco clarificado. “Ele é o produto gerado após processos rigorosos de filtragem, eliminando macronutrientes e mantendo compostos bioativos, como os polifenóis”, esclarece a pesquisadora.
No estudo, Taiana e sua equipe administraram a substância em ratos machos da linhagem Wistar em uma janela de desenvolvimento correspondente à adolescência. A pesquisadora disponibilizou o líquido aos animais a partir do método de administração oral voluntária, ou seja, simulando o padrão de comportamento humano. O resultado: indivíduos mais “felizes” e dispostos. “O preparado foi muito eficaz em reduzir espécies reativas de oxigênio e respostas oxidantes. Isso quer dizer que o consumo nutricional ao longo da vida pode, sim, ser um grande aliado na defesa da saúde cerebral”, complementa Taiana, responsável pela investigação.
O trabalho realizado no laboratório do Parque de Ciência e Tecnologia Guamá, onde o fruto também é processado, demonstra que a ingestão voluntária em doses nutricionais atua como um importante protetor durante a fase vulnerável do neurodesenvolvimento adolescente. Os efeitos ansiolíticos e antidepressivos observados estão fortemente associados à capacidade dos compostos fenólicos de promover um reequilíbrio antioxidante em regiões cerebrais específicas, oferecendo proteção a circuitos críticos para a regulação do humor.
“Somos muito confiantes e entusiastas da ciência regional como forma de melhorar a economia local e a saúde da população em geral. Vislumbramos um produto nutracêutico, mas também sabemos das muitas limitações de estabilidade físico-química dos compostos. Portanto, isso é um plano futuro que ainda requer muita dedicação e pesquisa”, finaliza.
Texto: Ascom Fundação Guamá

