Doação de órgãos transforma espera em novas histórias de vida no Pará
Campanha da Sespa reforça a importância de conversar com a família sobre o desejo de ser doador; aos 9 anos, Walace Brito mostra como um “sim” pode significar a chance de voltar a viver
Beber água sem restrições, tomar banho de chuveiro, conhecer uma praia, brincar com os amigos e permanecer na escola até o fim da aula. Gestos simples da infância ganharam um significado especial para Walace Brito, de 9 anos. Depois de enfrentar um câncer renal, perder os dois rins e passar quase seis anos em hemodiálise, o menino recebeu, em setembro de 2025, o transplante que transformou sua rotina.
A história de Walace traduz o principal chamado do Setembro Verde, campanha de conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos. No Pará, a iniciativa é coordenada pela Central Estadual de Transplantes (CET), da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa).
Walace foi diagnosticado com tumor renal bilateral quando tinha pouco mais de um ano. Após o tratamento contra a doença e a retirada dos dois rins, passou a depender da hemodiálise para sobreviver. Durante 5 anos e 11 meses, sua rotina foi marcada por sessões realizadas de segunda a sábado, além de internações e cuidados permanentes. “Foi uma fase muito difícil para toda a nossa família. Houve momentos em que pensei que ele não fosse aguentar, mas ele conseguiu”, relembra a mãe, Raimunda Reis Pinto.
Depois de vencer o câncer e cumprir o período necessário para ser considerado apto ao transplante, Walace entrou na lista de espera em setembro de 2024. Um ano depois, a família recebeu a ligação informando que havia um possível doador compatível. “Na hora, eu não acreditei. O Walace ouviu a conversa e falou: ‘Esse rim vai ser meu’. Depois de quase seis anos vendo meu filho em uma máquina de hemodiálise, receber aquela notícia era algo que eu esperava havia muito tempo”, conta Raimunda.
Os exames confirmaram a compatibilidade e o transplante foi realizado com sucesso. Após superar complicações no período de recuperação, Walace voltou para casa e começou a descobrir uma nova rotina.
Antes do transplante, Walace precisava controlar rigorosamente a ingestão de líquidos e não podia molhar o cateter utilizado na hemodiálise. Também saía mais cedo da escola para fazer o tratamento. Agora pode permanecer até o fim das aulas, brincar, beber água e tomar banho de chuveiro, de mar ou de igarapé. “Eu gosto de ficar com a minha família e poder tomar banho numa praia, no chuveiro e no igarapé. Agora eu estou com o rim e posso viver a vida”, diz o menino.
Para Raimunda, a nova fase do filho só foi possível porque, em um momento de perda, outra família autorizou a doação. “Se eu pudesse ter a oportunidade, queria dizer obrigada e dar um abraço nessa família. No momento de dor, eles disseram ‘sim’ e salvaram a vida do meu filho”, afirma.
Decisão da família - No Brasil a doação de órgãos e tecidos após a morte depende da autorização familiar e por isso manifestar o desejo em vida de ser um doador é fundamental. A coordenadora da Central Estadual de Transplante, Silvia Nascimento, explica que o Setembro Verde busca levar o tema para dentro das casas e diminuir dúvidas e tabus que ainda cercam o processo. “O Setembro Verde é um momento dedicado a ampliar o diálogo sobre doação de órgãos e tecidos. Não basta ter o desejo de ser doador. É essencial comunicar essa vontade enquanto se está vivo, porque a família tem papel decisivo nesse processo”, ressalta.
Entre os fatores que ainda dificultam a autorização estão dúvidas sobre o diagnóstico de morte encefálica, receio de que a doação interfira na assistência prestada ao paciente, medo de alterações no corpo e falta de informação sobre o processo.
Além das ações de conscientização, a CET investe na qualificação dos profissionais da rede para garantir acolhimento e comunicação adequada com as famílias. “A morte encefálica é diagnosticada a partir de critérios médicos rigorosos e protocolos estabelecidos. A doação só acontece após a confirmação do diagnóstico e a autorização da família. Nosso trabalho também envolve capacitar os profissionais para que essa abordagem seja feita de maneira humanizada”, explica Silvia.
Rede de transplantes - O Pará conta com uma rede de doação e transplantes coordenada pela CET/Sespa, formada por equipes hospitalares de doação, Organizações de Procura de Órgãos (OPOs), banco de olhos e serviços transplantadores. Atualmente, são 18 equipes de doação de órgãos e tecidos (e-DOTs) e duas OPOs, localizadas em Belém e Santarém.
Desde 2019 até 2026, foram realizados 2.960 transplantes no Estado: 2.421 de córnea, 368 de rim, 109 de medula óssea, 47 de fígado e 15 de tecido músculo-esquelético, modalidade iniciada no Pará em 2023. Somente entre janeiro e agosto deste ano, foram realizados 34 transplantes renais, 215 de córnea, 16 de fígado, 24 de medula óssea, sete de tecido músculo-esquelético e dois de esclera.
Apesar dos avanços, a necessidade de doadores permanece elevada. Em 31 de agosto de 2026, 753 pessoas aguardavam por um transplante de córnea no Pará, 660 esperavam por um rim e 29 por um fígado.
A orientação da CET é que quem deseja ser doador converse com os familiares e deixe sua vontade clara. Essa informação pode ajudar na tomada de decisão em um momento marcado pela dor da perda. “Conversem sobre doação enquanto todos estão bem. Digam claramente à família: ‘Eu quero ser doador de órgãos e tecidos’. Em um momento de perda, essa decisão pode transformar a dor em um gesto de generosidade e esperança. Doar é um ato de amor e falar sobre doação também é”, conclui Silvia.
Na casa de Raimunda, o significado desse gesto está na rotina de um menino que, depois de anos de tratamento, voltou a fazer planos. Para Walace, o transplante pode ser resumido em poucas palavras: “Agora eu posso viver.”
Texto: Giullianne Dias – Ascom Sespa

