Hospital Abelardo Santos destaca o impacto da decisão familiar na doação de órgãos
Equipes multiprofissionais debatem o acolhimento humanizado em momentos de luto e a transparência em cada etapa do atendimento no SUS
O luto da perda e a oportunidade de um recomeço para quem aguarda na fila de transplantes se encontram no ato da doação de órgãos. Para marcar o mês voltado a essa conscientização, o Hospital Regional Dr. Abelardo Santos (HRAS), em Icoaraci, distrito de Belém, realiza, nos dias 17 e 18 de setembro, a II Jornada de Doação de Órgãos. O evento traz a temática "O Sim Que Transforma" e reúne atividades voltadas para usuários, acompanhantes e profissionais da instituição.
A doação de órgãos depende exclusivamente da autorização dos parentes após a confirmação da morte encefálica, que é o diagnóstico definitivo e irreversível da parada de todas as atividades do cérebro. A médica intensivista Lorena Salomão, destaca que o tema precisa ser conversado abertamente no ambiente familiar, pois a decisão dos parentes representa a única chance de recomeço para quem necessita de um transplante.
Critérios técnicos para a destinação de órgãos no SUS
A gestão do processo fica a cargo do Sistema Nacional de Transplantes, estrutura do Ministério da Saúde que coordena todas as etapas em parceria com as secretarias estaduais e municipais pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A escolha das pessoas que receberão os órgãos não segue a ordem de chegada na fila. O sistema utiliza critérios técnicos rigorosos que envolvem a compatibilidade genética, a gravidade do estado de saúde de cada paciente e a distância geográfica entre o doador e o receptor.
"O processo depende do consentimento da família. É uma decisão que precisa ser conversada abertamente em casa, pois a manifestação representa a única chance para quem aguarda por um órgão. Se uma pessoa pretende ser uma doadora de órgãos, essa decisão deve ser comunicada", pontua a médica Lorena Salomão.
Aumento na adesão das famílias
Os dados do HRAS mostram uma evolução positiva nos indicadores entre 2025 e 2026. Durante o ano de 2025, a unidade registrou 27 notificações de potenciais doadores e seis doações efetivadas, com dez recusas, gerando uma taxa de autorização familiar de 22,2%. No período de janeiro a agosto de 2026, com 22 notificações, o hospital alcançou as mesmas seis doações efetivas. O resultado elevou a taxa de aceite familiar para 27,3%.
Na unidade, a Equipe Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (EDOTT) atua na identificação de potenciais doadores e no suporte às famílias. O grupo reúne médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais para garantir transparência e acolhimento.
"A doação de órgãos depende diretamente de um diálogo acessível e humanizado com a família. O trabalho é garantir que o processo ocorra com o devido respeito e clareza para que a decisão seja tomada com segurança", reforça a enfermeira da equipe, Dejenane Costa.
Segundo o diretor-técnico do hospital, médico Marcel Jofra, o tema exige maturidade para a compreensão de que, para salvar uma vida, outra se encerrou. “É importante destacar que todo luto é respeitado, bem como toda vida salva é celebrada justamente pelo ato da doação. Não há uma meta, tendo em vista que todas as decisões, a favor ou contra, importam. O que precisa ser posto é a importância de refletir sobre o assunto para que a decisão da doação seja consciente de que apesar de uma lamentável perda, outras pessoas terão uma chance”, ponderou.
Ações educativas e capacitação técnica
A programação do evento alusivo à doação de órgãos e tecidos começa às 9h com a caminhada orientativa "Você Decide". A atividade percorre os blocos G e C com o objetivo de esclarecer dúvidas do público sobre os procedimentos envolvidos na doação. Em seguida, a diretoria e os gestores realizam a abertura oficial das atividades.
Ao longo do dia, os participantes acompanham palestras e ações educativas. As discussões abordam o impacto social da decisão familiar, a importância do acolhimento humanizado e o combate à desinformação sobre o processo. O evento busca promover a sensibilização e a qualificação profissional, fortalecendo a cultura de doação e o aprimoramento do fluxo de atendimento hospitalar.
No período noturno, o projeto Cine Pipoca exibe um filme relacionado ao tema para incentivar o diálogo e a reflexão entre os colaboradores da instituição.
Paralelamente às palestras, o evento oferece dois cursos de qualificação técnica. O primeiro é a Capacitação para Diagnóstico de Morte Encefálica, voltada exclusivamente aos médicos para a atualização dos critérios e etapas de confirmação da morte encefálica, caracterizada pela perda definitiva e irreversível do funcionamento do cérebro.
O segundo curso é a Capacitação em Logística de Notificação para o Diagnóstico de Morte Encefálica, direcionada às equipes multiprofissionais das Comissões Intra-hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante. Esta formação aborda a identificação e a comunicação de potenciais doadores, sendo aberta tanto aos funcionários da unidade quanto a profissionais de outras redes de saúde.
Referência em saúde pública
O HRAS é a maior unidade pública do governo do Pará. Referência no atendimento à mulher, criança e população indígena, promoveu mais de um milhão de atendimentos em 2025.
A estrutura conta com pronto-socorro pediátrico, ginecológico e obstétrico 24 horas, 360 leitos distribuídos entre emergência, cirurgia, internação clínica, Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e Unidades de Cuidados Intermediários (UCIn), além de ser uma das principais maternidades do Estado, realizando mais de cinco mil partos anuais, e contar com um centro de terapia renal.
Texto: Ascom HRAS

