Programa 'Obesidade Zero' chega a 2.800 cirurgias bariátricas no Pará
Gratuito, seguro e acessível, o programa criado em 2020 pelo Governo do Estado é decisivo no apoio a paraenses com obesidade grau 3
Mudar o ponteiro da balança é apenas o começo. A verdadeira revolução ocorre na reconquista da liberdade, do bem-estar e do prazer de viver. Criado pelo Governo do Pará e executado pela equipe multiprofissional do Hospital Jean Bitar (HJB), em Belém, o Programa Obesidade Zero celebra seis anos de atuação consolidado como uma estratégia de cuidado integral para pessoas com obesidade.
Desde o lançamento, em setembro de 2020, o programa, oferecido totalmente pelo SUS (Sistema Único de Saúde), já viabilizou mais de 2.820 cirurgias bariátricas, contribuindo para transformar a rotina e a qualidade de vida de milhares de usuários.
Muito além de um procedimento cirúrgico, a gastroplastia é uma das etapas do tratamento da obesidade grau 3. O diferencial do Obesidade Zero está justamente no acompanhamento integral. Do primeiro atendimento ao pós-operatório, cada participante é acompanhado por uma equipe formada por médicos, cirurgiões, endocrinologistas, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais.
A preparação para a cirurgia pode variar de seis meses a dois anos, de acordo com as condições clínicas e a evolução de cada paciente. O período é utilizado para avaliação, realização de exames, controle de doenças associadas à obesidade e preparação para as mudanças necessárias antes e depois do procedimento.
Cuidado começa antes da cirurgia
De acordo com a endocrinologista do Hospital Jean Bitar, Gabriella Bissi, o acesso à cirurgia segue critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Entre eles está o índice de massa corporal (IMC) acima de 40, mesmo sem doenças associadas, ou entre 35 e 39,9 quando há comorbidades relacionadas à obesidade, como diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia e esteatose hepática.
“A gente entende a expectativa do paciente, porque muitas vezes é uma vontade de uma vida inteira. Mas também são hábitos construídos ao longo de muitos anos que precisam ser modificados. Por isso, a segurança do paciente é prioridade. Ele passa por uma avaliação multidisciplinar, com endocrinologista, assistente social, nutricionista e psicólogo e, posteriormente, por cardiologista, pneumologista, anestesista e cirurgião”, detalha.
Segundo a médica, o período de preparação é fundamental para que as condições clínicas estejam controladas antes da cirurgia.
“São muitas consultas e, ao mesmo tempo, o paciente está fazendo mudanças intensas. As doenças associadas à obesidade precisam estar controladas para que ele esteja estável no dia da cirurgia. A pressa não pode atropelar a segurança. É nesse processo que conseguimos estabilizar doenças e preparar o paciente para entrar na cirurgia com o menor risco possível e melhores condições para o pós-operatório”, ressalta Gabriella.
O acompanhamento também permite que o paciente compreenda que a cirurgia não representa, isoladamente, o fim do tratamento. “A perda de peso é a ponta do iceberg. É o que a gente enxerga e muitas vezes é o que traz o paciente ao programa, mas, como profissionais de saúde, olhamos muito além disso. Conseguimos reduzir comorbidades e melhorar o controle de várias doenças”, explica.
A endocrinologista reforça, no entanto, que os resultados dependem da continuidade do acompanhamento. “Não podemos vender a ideia de que o paciente vai entrar e sair curado. Existe uma melhora metabólica gradual, mas isso depende muito do acompanhamento pós-operatório. A cirurgia não é apenas o ato cirúrgico. É o pré-operatório, a cirurgia e, principalmente, um pós-operatório bem acompanhado”, afirma.
Acesso pelo SUS
O caminho para chegar ao programa começa de forma digital. A enfermeira e coordenadora do bloco cirúrgico do HJB, Luciana Gomes, explica que o interessado deve acessar o site do Obesidade Zero e preencher as informações solicitadas.
“O acesso ao programa é simples. A pessoa entra no site, faz o cadastro e informa dados como peso, altura e possíveis comorbidades. O próprio sistema calcula o IMC e informa se o paciente está apto para participar do programa”, explica.
Após o cadastro, o paciente entra em uma fila e é chamado para a primeira avaliação. “A primeira consulta é feita com o cirurgião bariátrico, que explica como funciona o programa, solicita exames e faz os encaminhamentos para as outras especialidades. O tratamento dentro do Hospital Jean Bitar é multidisciplinar. Não é apenas a parte médica”, detalha Luciana.
O paciente passa por diferentes profissionais ao longo do processo, entre eles endocrinologista, nutricionista, psicólogo, assistente social, pneumologista, cardiologista e anestesista. Os casos também são discutidos pela equipe, permitindo uma avaliação integrada antes da liberação para o procedimento.
“Depois de todos os exames e das liberações do cardiologista, pneumologista e anestesista, o paciente retorna ao cirurgião bariátrico, que emite o laudo para autorização da cirurgia. Depois disso, ele aguarda o chamado para o procedimento”, explica a coordenadora.
O cuidado continua após a operação. “Depois da cirurgia, o paciente tem retorno com o cirurgião bariátrico e continua sendo acompanhado pelo endocrinologista, cardiologista, nutricionista e psicólogo. É um acompanhamento integral, para que ele não foque apenas na perda de peso, mas também desenvolva consciência e hábitos que permitam manter uma boa qualidade de vida”, acrescenta Luciana.
Uma nova rotina
As estatísticas ganham rosto e emoção em relatos como o da auxiliar administrativa Thainá Damasceno Quaresma, de 36 anos. Quando ingressou no programa, em 2021, pesando 134 quilos, enfrentava dores crônicas na coluna, limitações de mobilidade e os impactos emocionais do constrangimento social em espaços públicos. Hoje, pesando 68 quilos, Thainá vive uma realidade completamente diferente.
“Tenho uma nova vida. Ganhei uma nova chance”, garante Thainá, que trocou as dores diárias pela musculação e pelas corridas de rua, tornando-se fonte de inspiração para os filhos e amigos.
A experiência de quem ainda está no processo também mostra como o acompanhamento pode provocar mudanças antes mesmo da cirurgia. É o caso de Daniela Ferreira, moradora de Marabá, que conheceu o programa por indicação de um amigo que já havia realizado a bariátrica no Hospital Jean Bitar.
“Um amigo que fez a bariátrica aqui me falou: ‘Dani, eu já fiz minha cirurgia e estou super bem. Vai lá, amiga, faz o teu cadastro’. No início, fiquei meio assim, mas fiz a inscrição. Depois de cerca de uma semana, marcaram minha consulta e eu vim para Belém”, conta Daniela.
Ao iniciar o acompanhamento, Daniela pesava 132 quilos. Atualmente, já está com 121 quilos, resultado obtido antes da realização da cirurgia.
“Comecei sem expectativa, mas, depois que passei pela nutricionista e pelo psicólogo, comecei a perceber o efeito do acompanhamento. Tudo que a nutricionista orientou, estou tentando seguir à risca. Antes eu não fazia exercício. Hoje já treino e faço caminhada. Estou dando o meu melhor”, relata.
Para Daniela, o processo também ajudou a mudar a percepção sobre a cirurgia bariátrica e o acesso ao tratamento pelo SUS. “Eu recomendo o programa. Até já indiquei para uma prima fazer a inscrição, porque na minha família muitas pessoas têm obesidade. A gente pensa que é um bicho de sete cabeças, mas não é. É muito fácil. Você entra no site, coloca seus dados e eles orientam tudo, explicam como marcar as próximas consultas e acompanham o processo”, afirma.
Para o administrador hospitalar e diretor Executivo do Jean Bitar, Giovani Merenda, chegar aos seis anos do Programa Obesidade Zero com mais de 2.800 cirurgias realizadas demonstra a importância da atuação integrada das equipes.
“Por trás de cada cirurgia existe o trabalho de uma equipe multiprofissional altamente qualificada. No Hospital, investir na capacitação contínua dos nossos médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais e demais profissionais é um compromisso com o paciente bariátrico, com acolhimento e segurança em cada etapa do processo, do pré ao pós-operatório. Isso permite que histórias como a da Thainá se tornem realidade no nosso Estado”, enfatizou o gestor.
O Programa Obesidade Zero demonstra que o tratamento da obesidade envolve mais do que a redução do peso. O processo é totalmente gratuito e realizado pelo SUS, com acompanhamento especializado antes e depois da cirurgia.
As inscrições e o acompanhamento das etapas são feitos de forma digital. Basta acessar o portal oficial: cadastrobariatrica.pa.gov.br.
O Hospital Jean Bitar presta assistência em média e alta complexidade na área ambulatorial e hospitalar a usuários transgêneros, e em clínica médica e cirúrgica para pessoas com doenças metabólicas e gastrointestinais.
A unidade da rede pública estadual de saúde fica na Rua Cônego Jerônimo Pimentel, nº 543, no bairro Umarizal, em Belém. Mais informações: (91) 3073-6610 ou (91) 3108-6161.
Texto: Ascom / Sespa

