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MUITO ALÉM DA DISTRAÇÃO

Brincar com orientação científica auxilia o tratamento contra o câncer infantil

No ambiente hospitalar, a Terapia Ocupacional adapta o lúdico para preservar o desenvolvimento, proteger a energia do corpo e ressignificar perdas na rotina de crianças e adolescentes

Por Governo do Pará (SECOM)
29/09/2026 17h35

Nas enfermarias e brinquedotecas do Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo (Hoiol), em Belém, ver uma criança brincando pode parecer, aos olhos de quem observa, um mero passatempo para esquecer a dor ou fazer o tempo correr. Para a Terapia Ocupacional, no entanto, a cena carrega um rigor técnico. O lúdico, no contexto hospitalar, não é entretenimento improvisado, mas sim um recurso terapêutico baseado em evidências científicas, com alvos clínicos bem definidos.

Dentro desse contexto, o brincar é estudado como uma ocupação - uma das mais importantes de toda a infância. É a partir dela que a criança se desenvolve. Esse processo de amadurecimento não deve ser interrompido com a hospitalização, explica o especialista Lukas Alencar, terapeuta ocupacional do Hospital Oncológico Infantil.

“As atividades lúdicas funcionam como um meio de criação de vínculo entre o profissional e a criança ou o adolescente, além de atuarem como um recurso terapêutico. Nas crianças menores, o foco recai sobre o desenvolvimento psicomotor. Já nas maiores, o trabalho busca a manutenção ou a recuperação de componentes motores, cognitivos e funcionais, favorecendo o desempenho nas atividades cotidianas e atenuando os impactos da hospitalização”, informa o terapeuta.

Quebrar barreiras - Contudo, colocar essa engrenagem em prática exige superar barreiras impostas pela própria doença e pelos protocolos de tratamento. Dor, fadiga, alterações laboratoriais e  redução da disposição física podem dificultar o engajamento nas atividades. “Nesses casos, o papel do terapeuta ocupacional exige avaliação constante e adaptação minuciosa. As propostas são flexibilizadas e podem ocorrer diretamente no leito, com menor demanda física, mas significativas e estimulantes”, acrescenta Lukas Alencar.

A estrutura física também é importante para garantir a segurança física e emocional. Ambientes projetados para favorecer o brincar, a socialização e a autonomia são essenciais. O Hoiol conta com uma brinquedoteca estruturada e um Espaço Jovem, equipado com videogame e pebolim, além de área externa para atividades ao ar livre. “Esses espaços permitem experiências mais próximas da rotina dos pacientes, respeitando as condições clínicas e as medidas de segurança necessárias durante o tratamento”, ressalta o terapeuta.

Tecnologia e afeto - Um dos maiores desafios enfrentados durante o tratamento é a interrupção abrupta de práticas que exigiam vigor físico antes do diagnóstico, a exemplo de futebol, natação e ciclismo. Para lidar com essa perda de identidade e autonomia, a Terapia Ocupacional recorre a adaptações criativas e recursos tecnológicos.

Lukas Alencar relata o caso de um adolescente diagnosticado com osteossarcoma que, antes da internação, tinha o hábito de andar de bicicleta. Como a condição física do momento vetava a atividade, a equipe utilizou o Nintendo Wii para simular a pedalada de forma segura e adaptada. A estratégia garantiu que ele retomasse uma prática de sua rotina.

A personalização começa pela compreensão de quem é a criança ou o adolescente além do diagnóstico. “Investigamos o histórico ocupacional, a rotina, os interesses, as preferências e  as atividades com significado para o paciente. A partir disso, construímos propostas terapêuticas, individualizadas, que façam sentido para a realidade dele e garantam a participação ativa no tratamento. Dessa forma, a Terapia Ocupacional contribui para preservar autonomia, identidade, participação e qualidade de vida, mesmo durante um período marcado por muitas limitações”, destaca o profissional.

Texto: Ascom/Sespa